Durante o webinário intitulado “Tecnologias, IA e Eleições”, promovido pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras nesta terça-feira, 15 de outubro, pesquisadores destacaram a urgência de ampliar a regulação e a fiscalização de plataformas digitais e do uso de inteligência artificial no cenário brasileiro. As especialistas Fernanda Rodrigues, diretora executiva do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), e Larissa Santiago, cofundadora da plataforma de comunicação independente Blogueiras Negras, abordaram os riscos associados aos algoritmos de recomendação e às deepfakes, sobretudo em contextos eleitorais.
Fernanda Rodrigues enfatizou a importância de estabelecer uma regulação mínima que permita aos usuários maior autonomia na escolha de conteúdos. Segundo ela, os algoritmos de recomendação utilizados pelas plataformas digitais têm um papel central na definição do que é exibido aos usuários, muitas vezes de forma padronizada e com vieses discriminatórios. “É preciso uma regulação mínima que assegure que as pessoas possam optar por não receber conteúdos padronizados e que os mecanismos de recomendação não tenham vieses discriminatórios”, afirmou a especialista. Essa preocupação reflete a crescente evidência de que tais algoritmos podem reforçar desigualdades e promover a exclusão de determinados grupos.
No que diz respeito à inteligência artificial, as pesquisadoras apontaram que o desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil ainda não tem sido pautado pelas demandas sociais, sendo dominado por grandes empresas de tecnologia que monopolizam o debate. Larissa Santiago destacou que, embora o Brasil possua um sistema regulatório considerado relativamente bom em comparação com outros países, há uma necessidade premente de intensificar a fiscalização e ampliar os esforços de educação midiática. Ela ressaltou que a população ainda enfrenta dificuldades para distinguir entre conteúdo produzido por pessoas reais e por inteligências artificiais, o que aumenta o risco de manipulação e desinformação.
A especialista também trouxe à tona um exemplo histórico para ilustrar os perigos do uso de inteligência artificial na política brasileira. Santiago mencionou o processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, ocorrido em 2016, antes mesmo da popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa. Segundo ela, a circulação de imagens e notícias distorcidas na época contribuiu para a polarização e para o agravamento do conflito político, processos que poderiam ser potencializados com o uso de deepfakes e desinformação alimentada por IA. Santiago alertou que essas tecnologias têm o potencial de ampliar a violência de gênero e raça na esfera política, por meio de campanhas de difamação e manipulação de informações.
A discussão reforça a necessidade de uma abordagem regulatória mais rigorosa e de maior investimento em educação digital, para que a sociedade possa lidar de forma mais crítica e segura com os avanços tecnológicos. Especialistas concordam que, sem uma intervenção adequada, os riscos associados ao uso indevido de algoritmos e inteligência artificial podem comprometer processos democráticos e aprofundar desigualdades sociais.