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Aumento na Demanda por Transplantes de Córnea no Brasil Contrasta com Estabilidade na Realização dos Procedimentos

No ano passado, foram 17.790 cirurgias que ajudaram a recuperar a visão, um marco classificado pelo conselho como histórico (Divulgação/HFB)

Nos últimos seis meses, o Brasil registrou um aumento de 15% na quantidade de pacientes aguardando por transplantes de córnea, passando de 32.639 em dezembro de 2024 para 37.719 atualmente, conforme dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Apesar do crescimento na fila de espera, o país atingiu recorde de procedimentos realizados no último ano, com 17.790 cirurgias de córnea, um marco considerado histórico pelo conselho.

O aumento na demanda ocorre em um contexto de expansão na realização de transplantes, que, embora tenha alcançado níveis elevados, não tem conseguido acompanhar completamente o ritmo de novas indicações médicas. O sistema nacional de transplantes, mesmo operando próximo à autossuficiência teórica, enfrenta um paradoxo: a lista de espera continua a crescer devido ao aumento constante de indicações clínicas, além de fatores estruturais e econômicos que dificultam a ampliação do número de procedimentos.

Atualmente, o tempo médio de espera por um transplante de córnea no Brasil é de 370 dias, mais que o dobro do registrado há uma década, quando a média era de 174 dias. Essa elevação no tempo de espera é consequência do passivo acumulado ao longo dos anos, agravado por fatores como a falta de reajuste nos valores pagos pelos procedimentos, o impacto da pandemia de Covid-19 — que provocou um represamento de pacientes entre 2020 e 2023 — e os custos elevados dos insumos utilizados nos bancos de olhos, cotados em dólar.

Especialistas também apontam para o aumento das exigências de controle de qualidade na produção e processamento das córneas, o que, segundo o CBO, contribui para o encarecimento dos processos e para a dificuldade de manter bancos de olhos financeiramente sustentáveis. O conselho reforça que esses fatores, combinados, criam uma situação financeira desafiadora para os bancos de olhos, que continuam recebendo o mesmo valor há mais de uma década, apesar do aumento nas exigências legais e de qualidade.

No cenário regional, o Ceará se destaca pela eficiência na gestão da fila de espera, realizando 1.371 transplantes em 2025 e mantendo apenas 93 pacientes ativos na lista ao final do ano, mesmo com 1.639 novos ingressos ao longo do período. Mato Grosso também apresenta uma gestão eficiente, com apenas 37 pessoas na fila. Em contraste, o Rio de Janeiro registrou 653 transplantes realizados em 2025, enquanto recebeu 1.720 novos ingressos, resultando em uma lista ativa de 4.760 pacientes ao final do ano. Estados como São Paulo e Minas Gerais, que concentram as maiores populações do país, possuem filas expressivas, com 7.505 e 4.532 pacientes ativos, respectivamente, embora apresentem uma relação mais equilibrada entre ingressos e procedimentos realizados. Por outro lado, Amapá e Roraima não realizaram transplantes de córnea em 2025.

Apesar dos desafios, o Brasil mantém uma posição relativamente favorável no cenário internacional, apresentando desempenho compatível com países como Canadá, Austrália e alguns nações europeias. Na América Latina, o país destaca-se como líder, superando Argentina, Chile, Colômbia e México em volume de transplantes e na gestão das filas.

No perfil dos pacientes, as mulheres representam 56% do total na lista de espera, enquanto pessoas com 65 anos ou mais correspondem a 47%, refletindo o envelhecimento populacional e o aumento de doenças degenerativas que afetam a córnea. Um dado preocupante é o número de crianças e adolescentes na fila de espera, atualmente 753, um aumento em relação às 616 registradas em dezembro de 2024, indicando uma demanda crescente na faixa etária mais jovem.

O impacto da pandemia de Covid-19 foi decisivo na formação do cenário atual. Em 2020, o número de transplantes caiu para 7.349, quase metade dos 14.942 realizados em 2019, devido às suspensões de cirurgias eletivas para liberar leitos para pacientes com Covid-19. No entanto, após esse período, houve recuperação progressiva, atingindo 12.869 procedimentos em 2021, 14.082 em 2022, 16.028 em 2023, 17.108 em 2024 e chegando ao recorde de 17.790 em 2025.

O tema foi destaque no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), realizado em Salvador até o próximo sábado (12), onde especialistas discutem os avanços e os desafios do sistema de transplantes de córnea no país.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade