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Gigantes da IA terão IPOs bilionários, mas há quem tema uma nova bolha

•27/01/2025REUTERS/Dado Ruvic

Está aberta a temporada de IPOs dos gigantes de inteligência artificial. A primeira da fila será a SpaceX, que abriga a xAI, empresa de Elon Musk dedicada ao setor. As concorrentes OpenAI e Anthropic virão a seguir.
Em um espaço de tempo que talvez não ultrapasse 120 dias essas três jovens companhias terão ido às bolsas de valores para levantar, em conjunto, algo próximo a 200 bilhões de dólares. Com isso seu valor de mercado combinado pode alcançar 3,6 trilhões de dólares, número 60% maior do que o PIB brasileiro do ano passado.
A expectativa é que a SpaceX faça sua estreia como companhia aberta arrecadando 75 bilhões de dólares nesta sexta-feira com a venda de menos de 5% de suas ações. Isso elevaria seu valor para 1,8 trilhão de dólares ou pouco mais do que o PIB da Espanha em 2025.
A operação deve deixar Elon Musk com 84% das ações da empresa e um patrimônio pessoal próximo a 3 trilhões de dólares.
A previsão de especialistas é de que OpenAI e Anthropic também alcancem, após seus respectivos IPOs, valores de mercado na casa do trilhão de dólares.
A fartura de novos recursos, por outro lado, fará subir a régua de Wall Street. Afinal, os animados investidores estarão ávidos por resultados trimestrais tão exuberantes quanto os níveis de captação daquelas estrelas de tecnologia.
Outro contraponto diz respeito a temores localizados no mercado de que a aposta frenética nos negócios de inteligência artificial possa gerar uma bolha financeira. Esta, uma vez estourada, geraria enormes prejuízos.
A história acumula uma longa lista de momentos de euforia injustificável que levaram negócios e investidores à falência do dia para a noite. O primeiro desses grandes episódios especulativos ocorreu na Holanda do século 17, quando a mania por tulipas se espalhou pela Europa e gerou uma onda irracional de aportes de recursos no cultivo e na comercialização daquela flor. A repentina percepção de que o cenário não combinava com a realidade fez desabar o mercado de tulipas.
As bolhas tendem a aparecer quando períodos de inovação e de supostas oportunidades inéditas de negócios acenam de forma tentadora. Foi assim com o entusiasmo causado pela multiplicação ilógica das empresas ferroviárias na Inglaterra dos anos 1850 que antecedeu falências em série; com a quebra da bolsa de Nova York em 1929; com a bolha da internet em 2000; com a crise financeira gerada pelas hipotecas subprime nos Estados Unidos em 2007/2008.
Em comum todas essas situações são caracterizadas pela crença de que os preços dos ativos continuarão a crescer de forma contínua, atraindo assim diferentes tipos de investidores. Eles inflacionam artificialmente os ativos, que num segundo momento perdem a maior parte do valor quando o mercado percebe a distorção da tendência anterior.
Talvez sejam descabidos os temores localizados de que possa estar em gestação uma nova bolha no setor tecnológico. O preço das ações da Nvidia, por exemplo, empresa que é a principal fornecedora de chips usados em sistemas de IA, disparou, mas seus lucros decolaram junto.
Mas o mercado vive não apenas de fatos, mas também de percepções. Assim, uma eventual ruptura de confiança nesse novo terreno da IA poderia ser o gatilho para derrubar os preços das ações das empresas que lideram o setor.
Se isso acontecesse, o repentino mau-humor do mercado afetaria acionistas, parceiros de negócios e todo um ecossistema que hoje gira em torno dessa nova solução tecnológica. E traria impactos para a economia mundial.
Motivada pelo interesse em explorar os riscos de uma possível bolha a caminho, a Bloomberg utilizou uma nova ferramenta de análise global de cenários batizada de SHOK. Em uma simulação a ferramenta mostrou que a crise começaria com uma perda de confiança e queda nas ações americanas.
O colapso nas precificações atuais dos players de IA impactaria principalmente Taiwan, Coréia do Sul e Estados Unidos. Como resultado, mais de um trilhão de dólares seriam rapidamente subtraídos do PIB global.
Grandes perdas de investidores abririam espaço para crédito mais caro e interrupção de investimentos, por exemplo, em data centers.
Ainda segundo a simulação da Bloomberg, à medida que pesadas perdas financeiras fossem registradas muitas famílias perderiam poder aquisitivo e gastariam menos. Diante disso empresas poderiam congelar novas contratações ou mesmo demitir funcionários.
Uma ampla recessão poderia ganhar corpo, ainda que China e Europa, menos alavancadas em relação às apostas no território de IA, viessem a sofrer impacto mais limitado. Mas devido a interdependência dos diferentes atores econômicos, a conta total a ser paga poderia chegar a 1,3% do PIB anual do planeta, ou 1,6 trilhão de dólares.
A análise da Bloomberg faz uma contextualização final: “Nosso modelo quantifica a intuição por trás das preocupações com bolhas especulativas. Ele mostra que o investimento e as avaliações em IA atingiram um nível em que uma reversão de sentimento poderia ser suficiente para prejudicar a economia global”.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade