Em uma conversa com o jornal americano “The New York Times”, o ator Wagner Moura revelou que rejeitou várias ofertas de papéis rentáveis em Hollywood e recebeu conselhos de um agente para ser menos exigente em sua carreira internacional. “Principalmente após ‘Narcos’, não quero me envolver em projetos que reforcem estereótipos sobre latinos”, explicou Moura à publicação. “Estou quase completando 50 anos, então que se dane.”
O artista brilha em “O Agente Secreto”, um filme dirigido por Kleber Mendonça Filho que está na disputa pelo Globo de Ouro, um dos principais prêmios da indústria cinematográfica. A cerimônia ocorrerá neste domingo (11). Moura também foi indicado na categoria de Melhor Ator em Drama, marcando sua segunda nomeação ao Globo de Ouro – a primeira foi em 2016, pela sua interpretação do narcotraficante Pablo Escobar na série “Narcos”, mas ele não venceu.
“O Agente Secreto” se passa em 1977, um período que os créditos iniciais descrevem, em inglês, como uma época de “great mischief”, uma expressão que Moura tentou explicar recentemente. “É como quando uma criança faz algo que sabe que não é aprovado pelos pais, mas faz mesmo assim”, afirmou ele, com um sorriso. “Eu me identifico com isso.”
Ao permanecer fiel a suas convicções e optar por projetos ousados como “O Agente Secreto”, Moura pode estar prestes a alcançar um novo ápice em sua carreira global. O eletrizante thriller político já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e prêmios de melhor ator no Festival de Cannes, além de reconhecimento da Associação de Críticos de Nova York. Apesar da dura concorrência com astros como Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet e Michael B. Jordan na disputa de melhor ator, muitos críticos acreditam que Moura poderá conquistar sua primeira indicação ao Oscar por este filme.
Construir uma carreira de ator sólida em dois continentes é um desafio, mas Moura, aos 49 anos, tem se destacado, trazendo sensibilidade e profundidade a obras com temática política, como “Guerra Civil”, prevista para 2024, a série “Ladrões de Drogas” da Apple TV e uma adaptação da peça “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, que ele apresentou recentemente em sua cidade natal, Salvador.
O diretor Kleber Mendonça Filho, que desenvolveu “O Agente Secreto” com Moura em mente, elogiou a clareza progressista do ator. “Seu carisma advém da sua constância”, comentou Mendonça Filho. Moura atribui essa firmeza ao seu falecido pai, um sargento da Aeronáutica. “Ele não era um ativista, mas tinha princípios sobre como devemos nos comportar como seres humanos”, disse ele. “Não quero me posicionar como uma bússola moral, mas me mantenho fiel a quem sou e ao que considero certo.” Em tom brincalhão, acrescentou: “É um pouco arrogante dizer isso, mas vou dizer assim mesmo. Estou quase fazendo 50 anos, então que se dane.”
“Este filme não precisa de Dolby Atmos”, brincou Mendonça Filho, “porque a voz de Wagner já é suficiente.”
Após o drama brasileiro “Ainda Estou Aqui” ter conquistado o Oscar de melhor filme internacional no ano passado, muitos no Brasil esperam que “O Agente Secreto” seja outro sucesso na temporada de premiações. No entanto, Moura tem consciência de que nem todos no país o apoiam. Nos últimos anos, durante o governo de Jair Bolsonaro, ele enfrentou uma onda de críticas por suas opiniões políticas. “Nunca evitei dizer o que acreditava ser certo, mesmo sabendo das consequências”, afirmou Moura.
As percepções nacionais começaram a mudar após a derrota de Bolsonaro nas eleições presidenciais de quatro anos atrás e sua condenação por tentar se manter no poder. Contudo, Mendonça Filho acredita que, mesmo hoje, se brasileiros fossem entrevistados nas ruas, cerca de um quarto ainda veria Moura de forma negativa. Esse clima de perseguição política permeia “O Agente Secreto”, que se passa no final da violenta ditadura militar brasileira, iniciada em 1964 e que durou 21 anos. “Este é um filme sobre um país que lida com problemas de memória”, disse Moura, lembrando que, após o fim do regime militar, uma lei de anistia absolveu os responsáveis por seus crimes. (Com informações do jornal Folha de S.Paulo e do portal de notícias g1)