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‘Sonhos’: uma paixão como reflexo da dinâmica de poder entre México e EUA

“Sonhos”, dirigido pelo cineasta mexicano Michel Franco e estrelado pela atriz norte-americana Jessica Chastain e pelo bailarino mexicano Isaac Hernández, é um filme que nos cativa por sua habilidade em abordar questões amplas, como imigração e relações de poder entre nações, através de uma narrativa íntima de amor e anseios, que também explora a luta pela influência.

Antes de mergulharmos na relação de Jennifer e Fernando, é pertinente recordar a famosa frase: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, proferida pelo ex-presidente mexicano Porfirio Díaz, que governou de 1876 a 1911. Essa frase ressoou na memória coletiva e foi reinterpretada por Andrés Manuel López Obrador, que presidiu o país entre 2018 e 2024, ao dizer: “Bendito México, tão perto de Deus e não tão longe dos Estados Unidos”, durante um encontro com o então presidente Joe Biden, em 2021. Atualmente, Claudia Sheinbaum Pardo é a presidente do México, enquanto Donald Trump exerce a presidência nos EUA. A realidade das relações entre as duas nações talvez se encontre em um meio-termo entre essas expressões impactantes.

Além disso, as interações pessoais entre mexicanos e estadunidenses podem oferecer uma perspectiva mais profunda sobre o que une e divide esses dois países tão próximos, que, apesar de suas diferenças, compartilham muitos aspectos em comum. Com aproximadamente 38 milhões de mexicanos vivendo nos Estados Unidos, Michel Franco escolheu um casal singular para explorar as dinâmicas de poder que os conectam e os distanciam.

“Sonhos”, em exibição nos cinemas, apresenta Jessica Chastain e Isaac Hernández como um casal intensamente apaixonado, em um mundo que tenta separá-los em múltiplos níveis. Fernando, o bailarino, deixa o México com a esperança de realizar seus sonhos em São Francisco, acreditando que encontrará apoio em Jennifer, uma herdeira de uma grande empresa com iniciativas sociais tanto nos EUA quanto no México. No entanto, após ser deportado e cruzar a fronteira de forma ilegal, ele continua a acreditar que o amor de Jennifer será sua salvação. É nesse contexto que as tensões entre o casal revelam a dinâmica de poder e a ilusão de uma elite que se vê como “salvadora”, sem assumir a responsabilidade por um processo histórico mais amplo.

O que mais me fascina nesse filme é a complexidade da relação entre os protagonistas, que, embora possuam um amor genuíno, também se veem enredados em uma dinâmica destrutiva. Ao refletir sobre essa relação tóxica, percebo como ela pode ser uma representação da interação entre Estados Unidos e México. Franco menciona que a busca de Jennifer por uma “vida dupla” — em que se apresenta de um jeito no México e de outro nos EUA — é uma verdadeira “bomba-relógio”.

O cineasta, conhecido por suas obras que provocam discussões sobre as feridas abertas da sociedade mexicana, como “Desde Lucia” (2012) e “Nova Ordem” (2020), também explora a intimidade e os conflitos do casal em “Sonhos”. Jennifer enfrenta uma batalha interna entre seus desejos e suas obrigações sociais, enquanto Fernando luta para se tornar um bailarino profissional e viver ao lado da mulher que ama.

A relação deles é uma metáfora das interações entre dois países que, embora tão próximos, parecem estar separados por um abismo. Através de cada discussão e cena íntima, Franco cria uma atmosfera de tensão que mantém o espectador em suspense sobre até onde a paixão de Fernando o levará a aceitar viver nas sombras.

Embora seu sonho seja dançar, ele também atravessa a fronteira por amor, desejando estar com ela. A perspectiva de Jennifer, que acredita que pode comprar a felicidade com suas doações, revela uma visão distorcida da realidade, onde ela se considera moralmente superior por ajudar algumas pessoas, sem perceber o impacto negativo de suas ações.

Por fim, “Sonhos” se apresenta como um thriller intimista sobre amor e liberdade, ampliando a discussão sobre um mundo que frequentemente transforma indivíduos em meras estatísticas. Em tempos de polarização, é uma pena que as pessoas muitas vezes não vejam o que as une, mas sim o que as separa. Essa dicotomia, repleta de rótulos e limitações, pode ofuscar a humanidade que existe em cada um de nós, o que é uma questão perigosa, como enfatiza Michel Franco.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade