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Margot Robbie e Colin Farrell não conseguem resgatar ‘A Grande Viagem da Sua Vida’

O diretor Kogonada alcançou um feito inesperado com “A Grande Viagem da Sua Vida”: reuniu dois dos mais admirados talentos de Hollywood, Margot Robbie e Colin Farrell, em um filme que carece completamente de emoção. A relação entre os personagens é inexistente, e a falta de conexão e paixão é palpável. Além do desconforto evidente, o que sobressai é a sensação de que tudo se resume a um bom pagamento. Uma vitória para eles, mas uma decepção para o público.

A jornada referida no título é, na verdade, uma reflexão do roteirista Seth Reiss, conhecido pelo aclamado “O Menu” e por uma série de comédias inteligentes. Marcado por experiências de sua adolescência — em particular, uma rejeição que provavelmente o deixou devastado — ele tinha duas opções: buscar terapia ou transformar suas vivências em um filme. E, como podemos imaginar, ele escolheu a segunda.

Entretanto, não se trata de um filme qualquer. Com “A Grande Viagem da Sua Vida”, Reiss tentou criar um épico inspirador, repleto de mensagens sobre a vida, o universo e a possibilidade de redenção para pessoas comuns. As lições apresentadas fazem com que os protagonistas revisitem momentos cruciais de seu passado na esperança de encontrar um caminho para o futuro, tudo isso sob a bandeira do “realismo fantástico” (e sim, eu me sinto à vontade para usar esse termo).

Colin Farrell interpreta David, um homem solteiro que ainda presta contas aos pais sobre sua vida e decide ir ao casamento de um amigo (embora os coadjuvantes sejam irrelevantes). Na celebração, ele conhece Sarah (Margot Robbie), outra pessoa que se sente deslocada. O flerte surge naturalmente, mas não avança, e parecia que a história terminaria ali. No entanto, no dia seguinte, o carro dela não liga, e o GPS de David sugere que ele a leve. Até aqui, tudo bem.

O que se desenrola a seguir é a tal jornada através do tempo e do espaço. O GPS, com um toque de humor e personalidade, os guia a locais aleatórios onde encontram diversas portas. Ao atravessá-las, ambos são transportados para momentos significativos de seu passado, ganhando uma nova perspectiva sobre suas vidas. Durante essa experiência, eles se conhecem melhor e, quem sabe, se apaixonam. Em teoria, tudo deveria funcionar.

A narrativa é uma verdadeira viagem alucinatória. David visita um farol que o faz refletir sobre a vida, retorna ao colégio onde estudou (um eco do passado do roteirista) e tem um encontro decisivo com seu pai. Enquanto isso, Sarah vai ao hospital onde sua mãe faleceu, a um museu que ambas costumavam visitar juntas (escondidas à noite, por algum motivo), e finalmente revive uma conversa franca com sua mãe na adolescência. As histórias de David e Sarah se entrelaçam em um restaurante, onde ambos, confrontando seus passados, demonstram sua dificuldade em formar qualquer laço amoroso.

O roteiro de Reiss é insatisfatório, uma combinação indigesta de autoajuda e diálogos profundos entre Margot e Farrell que não se conectam. Mais interessado em criar uma estética visual atraente do que em desenvolver coesão entre os personagens, Kogonada deixa seus protagonistas perdidos, sem saber a direção que a trama está tomando. Quando David finalmente consegue dizer “eu te amo” a Sarah, a vontade é de gritar um “finalmente!” no cinema, dada a falta de autenticidade e sinceridade na cena.

De vez em quando, Hollywood nos presenteia com produções assim, como “Corrente do Bem” ou “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Filmes que alegam transmitir lições valiosas, mas que, na verdade, são repletos de clichês constrangedores. Pode apostar que será um sucesso fragmentado no LinkedIn como parte de alguma palestra de um coach de meia-tigela.

O que realmente me incomoda é ver talentos excepcionais como Margot Robbie e Colin Farrell, deslumbrantes como nunca, perdidos em um enredo tão confuso. Mais astuta foi Phoebe Waller-Bridge, que aparece como a atendente da locadora de veículos que aluga o mesmo Saturn 1994 para os protagonistas e que se destaca apenas por seu uso excessivo de palavrões. Ha-ha. É esse tipo de humor que se sobressai em “A Grande Viagem da Sua Vida”, um filme que não é sobre a jornada e muito menos sobre o destino. Como diria Jerry Seinfeld, é uma história sobre nada.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade