Uma pesquisa sobre a história local de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, está organizando registros de cerca de três décadas de mobilização social, cultura, educação e saúde no território. Em um ano de trabalho, a iniciativa História Local de Manguinhos identificou, no Espaço Casa Viva, mais de 219 fitas VHS, 188 telas de artes plásticas, 142 instrumentos musicais, 44 banners e mais de mil fotografias. O projeto também estruturou um acervo de história oral com relatos de pessoas ligadas à trajetória da instituição e das ações comunitárias desenvolvidas na região.
O levantamento busca preservar e dar visibilidade a iniciativas que já existiam em Manguinhos antes da intensificação das relações entre o território e a Fiocruz. Entre os materiais localizados estão registros da Semana da Consciência Negra, realizada em 1991, além de documentos e imagens relacionados a festivais de música e campanhas sobre alimentação, cultura, educação, saúde e comunicação.
Ao reunir esses documentos, objetos e relatos, a pesquisa contribui para reconstituir parte da história social e cultural de Manguinhos a partir das experiências construídas pelos próprios moradores e organizações locais. O trabalho também procura reconhecer a participação comunitária em ações que marcaram a formação e a mobilização do território ao longo de diferentes períodos.
Moradores participam da organização do acervo
A iniciativa é realizada majoritariamente por moradores do Complexo de Manguinhos. Eles atuam como bolsistas de apoio à pesquisa e são colaboradores do Espaço Casa Viva, participando diretamente das etapas de identificação, catalogação e contextualização dos materiais físicos e digitais preservados no local.
Para organizar o conjunto de documentos, imagens, objetos e registros audiovisuais, a equipe desenvolveu uma metodologia própria. O processo conta ainda com o apoio de profissionais especializados nas áreas de documentação e conservação, responsáveis por contribuir para a preservação e a sistematização do acervo.
O trabalho não se limita à análise dos materiais já encontrados. Os pesquisadores também realizam entrevistas com pessoas que participaram da trajetória da instituição, entre elas ex-alunos, educadores, coordenadores, ativistas locais e representantes de organizações parceiras. Iniciadas em maio de 2026, as entrevistas integram a formação de um acervo de história oral.
A proposta é preservar relatos, memórias e experiências que ajudam a compreender a trajetória de Manguinhos e das iniciativas desenvolvidas no território. A história oral amplia o registro documental da pesquisa ao incorporar as lembranças de pessoas que vivenciaram as ações de educação, cultura, saúde, comunicação e mobilização social.
Pesquisa integra projeto ligado à Fiocruz
A iniciativa História Local de Manguinhos integra o projeto Promoção de Territórios Saudáveis e Sustentáveis em Maré e Manguinhos (PTSS), vinculado ao Museu da Vida Fiocruz e à Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). O trabalho é desenvolvido em parceria com a Rede de Empreendimentos Sociais para o Desenvolvimento Socialmente Justo, Democrático e Sustentável (Rede CCAP).
A parceria inclui o Espaço Casa Viva e o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), ligado ao Museu da Maré. A articulação reúne instituições e iniciativas dedicadas à preservação da memória e ao reconhecimento das experiências construídas nas comunidades de Maré e Manguinhos.
A organização pesquisada foi criada em 1985 como Centro de Comercialização e Abastecimento Popular (CCAP). Em 2003, passou a atuar como Rede CCAP, mesmo ano em que surgiu o Espaço Casa Viva, voltado à realização de atividades culturais. Ao recuperar essa trajetória, a pesquisa pretende contribuir para o reconhecimento das iniciativas comunitárias que ajudaram a construir a história de Manguinhos.