Cyda Moreno, aos 61 anos, atualmente brilha como Yara, a avó de Leona (Clara Moneke), na novela “Dona de Mim”. Para a atriz veterana, a ideia de uma novela das 7 protagonizada por uma família de mulheres negras era algo impensável há algumas décadas. “Eu, Vilma [Melo] e outros colegas da minha época somos um símbolo de resistência, pois não nos víamos representados. No meu primeiro dia de ensaio, comentei sobre isso: basta olhar as novelas do canal Viva. Recentemente, assisti a ‘História de Amor’, escrita por Manoel Carlos, e percebi que [décadas atrás] não havia representatividade negra. O Brasil, que tem uma maioria de população preta e parda, não refletia isso nas tramas. Naquela época, as novelas eram um fenômeno de audiência, mas a representatividade era inexistente”, afirmou Cyda Moreno em entrevista ao Splash.
Sobre inclusão, a atriz também leciona artes em escolas públicas do Rio de Janeiro, onde testemunha as marcas do racismo. “Observamos uma mudança significativa, mas o racismo estrutural ainda persiste nas escolas. É cruel ver uma quantidade significativa de alunos negros que não se aceitam como são”, explicou.
Na novela “Dona de Mim”, a diversidade vai além da presença de atores negros, incluindo também artistas com deficiência. No entanto, Cyda destaca que ainda existe resistência por parte do público em aceitar essa diversidade, e manda uma mensagem clara: “Sinto muito, mas estamos aqui para ficar e continuar essa jornada. Algumas pessoas reclamam dizendo ‘Ah, agora só tem negros’… e eu percebo essas críticas. Estamos provocando desconforto.”
Ela acrescenta que muitos preferem ver atores brancos, mesmo que seus desempenhos sejam fracos, do que aceitar os novos talentos negros que estão surgindo. “As pessoas buscam falhas… Precisamos acolher as oportunidades e honrar nossos ancestrais que pavimentaram este caminho. É essencial reconhecer e valorizar aqueles que lutaram nos movimentos negros da década de 1980, que conquistaram as cotas nas universidades. Essas cotas abriram portas para novas perspectivas. Isso faz toda a diferença”, destacou.
Na narrativa da novela, a atriz interpreta a avó de Leona e Stephany (Nikolly Fernandes), que criou as duas após a perda dos pais. Aposentada da fábrica Boaz, ela enfrenta dificuldades financeiras, mas se esforça para criar uma creche em sua casa, ajudando as mães da comunidade que precisam de apoio. Yara é uma personagem vibrante e boêmia, que adora aproveitar a Feira de São Cristóvão.
“Nós nos unimos, formamos companhias de teatro e produzimos filmes. Exploramos novos caminhos que resultaram em convites para a televisão… O avô de Carolina Maria de Jesus, mesmo sem instrução formal, era considerado um filósofo africano e dizia que, se fosse dada a oportunidade de estudar, o negro poderia transformar este país”, completou Cyda Moreno.
A trajetória de Cyda Moreno
Nascida em Sabará, Minas Gerais, Cyda Moreno é atriz, produtora cultural e educadora. Formada em artes cênicas, atualmente é doutoranda em história do teatro negro na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Desde 1983, Cyda se dedica ao teatro, sendo uma das fundadoras da Cia. Black & Preto Produções Artísticas, criada em 1993 e composta exclusivamente por atores negros. Ao longo de sua carreira, trabalhou com renomados diretores como Antunes Filho, Ulysses Cruz e Édio Nunes. Entre seus projetos mais recentes, destacam-se os espetáculos “Eu Amarelo – Carolina de Jesus” (2018-2023) e “Luiza Mahin… Eu Ainda Continuo Aqui” (2021-2023), ambos sob a direção de Édio Nunes. Na televisão, integrou o elenco de “A Padroeira” (2001) e “Amor Perfeito” (2023). No cinema, participou de filmes como “As Filhas do Vento” (2004), “Amor & Cia” (1998), “Quem Vai Ficar com Mário” (2021) e “Expresso Parador” (2022).