A varejista de brinquedos Ri Happy, reconhecida como a maior do Brasil no setor, protocolou, no último domingo (18), um pedido de homologação de plano de recuperação extrajudicial com o objetivo de reestruturar uma dívida superior a R$ 827,4 milhões. O procedimento, que visa evitar a falência da companhia, inclui também outras empresas do grupo controlado pela BluSun Capital Partners, como PBKids Brinquedos, Partout Administração de Franquias e Bens, News Toys Comércio, Distribuição e Importação, Brincar Marcas e Participações e DRH Casa de Festa.
O grupo, que atualmente conta com mais de 300 lojas físicas — incluindo unidades próprias e franquias — afirma que a necessidade da reestruturação decorre de uma série de fatores econômicos, financeiros e mercadológicos que afetaram suas operações. Segundo o documento oficial apresentado à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central da Comarca de São Paulo, a empresa enfrenta dificuldades agravadas pelo impacto da pandemia de Covid-19, além de outros elementos macroeconômicos adversos.
A pandemia, segundo a companhia, provocou um descompasso severo na estrutura financeira do setor de varejo de brinquedos, dificultando a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro do grupo. Entre os fatores citados estão a alta da alavancagem financeira, o aumento dos juros e a restrição do acesso ao crédito por parte dos consumidores, o que, juntos, reduziram significativamente as receitas do setor. Dados internos indicam que, até agosto de 2023, a Ri Happy já havia renegociado aproximadamente R$ 292 milhões de seu endividamento bancário, em esforço para aliviar a situação financeira.
Entretanto, o cenário se agravou com o aumento da taxa básica de juros (Selic), que atingiu 15% ao ano em junho de 2025. Esse movimento elevou o custo de financiamentos e agravou a crise econômico-financeira do grupo. A empresa destacou que, mesmo em recuperação dos efeitos da pandemia, passou a enfrentar um serviço de dívida de cerca de R$ 70 milhões anuais, incompatível com seu plano de negócios atual, dificultando a sustentabilidade de suas operações.
A situação se agravou ainda mais diante do encarecimento do crédito para as famílias, que passou a sofrer com juros elevados, restrição na oferta de financiamento e aumento do endividamento do consumidor. Esses fatores contribuíram para uma queda de 15,5% nas vendas de brinquedos em 2024, conforme dados da Scanntech, refletindo o impacto da crise na receita do setor.
Além do contexto interno, a Ri Happy também enfrenta a concorrência de produtos importados de países asiáticos, comercializados por plataformas como Shopee e AliExpress, que oferecem preços mais baixos. A alta carga tributária e os efeitos em cadeia no mercado de varejo também são apontados como fatores que contribuíram para o momento difícil da companhia.
Fundada em 1998, a Ri Happy nasceu na cidade de São Paulo e, após quase 30 anos de atuação, consolidou-se como líder no segmento de brinquedos, com 204 lojas próprias e 88 franquias, empregando mais de 2,6 mil pessoas. A receita líquida média do grupo é de aproximadamente R$ 1,2 bilhão por ano. Sua operação inclui marcas como Ri Happy e PBKids, além de áreas de atuação em importação, distribuição, franquias, recreação infantil e casas de festas.
Em 2018, a empresa, que havia sido adquirida por um fundo de private equity, iniciou o processo de abertura de capital na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No entanto, a oferta foi suspensa devido à volatilidade do mercado e às incertezas que afetaram o setor de varejo naquele período. A atual solicitação de recuperação extrajudicial representa uma tentativa do grupo de evitar um quadro de insolvência, buscando uma reestruturação que permita a continuidade de suas operações diante do cenário desafiador.