Em meio a um cenário de pressão sobre o orçamento familiar, consumidores brasileiros estão adotando uma estratégia de compra que especialistas chamam de “efeito ampulheta”. Essa abordagem consiste em, de um lado, investir mais em produtos de alta performance e qualidade considerada inegociável, enquanto, do outro, optam por itens mais acessíveis, como marcas próprias de supermercados, para suprir necessidades básicas. Essa dinâmica reflete uma adaptação do comportamento de consumo às dificuldades econômicas atuais, influenciando significativamente o mercado de higiene e beleza.
Segundo Daniela Carbinato, sócia da consultoria Bain & Company, essa mudança de comportamento é evidenciada por uma seleção mais criteriosa na hora de gastar. Durante evento promovido pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) nesta terça-feira, dia 6, ela explicou que, em momentos de restrição financeira, os consumidores tendem a fazer escolhas “muito intencionais” quanto às categorias e subcategorias de produtos que estão dispostos a pagar mais caro. Ela destacou que, nesse contexto, há uma expectativa de desempenho ou uma relação de maior importância com determinadas categorias, enquanto outras passam a ser adquiridas de forma mais econômica, muitas vezes por meio de marcas próprias ou produtos de entrada.
A pesquisa Consumer Pulse 2026, também apresentada durante o Summit de Inovação da Abihpec e conduzida pela Bain & Company, reforça esse diagnóstico ao apontar que a principal fonte de estresse dos brasileiros atualmente é a questão financeira, citada por 57% dos entrevistados. Em segundo lugar, aparecem preocupações relacionadas à saúde e bem-estar, com 46%. Esses dados evidenciam o impacto do cenário econômico na rotina de consumo, obrigando as empresas do setor de cosméticos e higiene a repensar suas estratégias para manter o faturamento sem recorrer a descontos amplos que possam comprometer suas margens de lucro.
Para enfrentar esse desafio, a indústria tem optado por um gerenciamento mais inteligente das receitas, priorizando promoções segmentadas e mudanças no formato dos produtos. Entre as estratégias adotadas estão a redução do tamanho das embalagens e a ampliação do modelo de refil, que permite ao consumidor adquirir apenas o conteúdo, evitando pagar duas vezes pelo recipiente, o que cria uma percepção de economia real. Essas medidas visam atender às diferentes faixas de consumidores, incluindo as gerações mais velhas, que nem sempre têm familiaridade com canais digitais.
O uso de tecnologia, especialmente a Inteligência Artificial (IA), tem sido fundamental nesse processo de adaptação. Dados do Consumer Pulse 2026 indicam que 77% dos brasileiros utilizam alguma ferramenta de IA, demonstrando que essa tecnologia deixou de ser uma inovação futurista para se tornar uma ferramenta prática de aumento de receita. Carbinato explica que a IA está sendo integrada aos processos de decisão das empresas, tornando as ofertas mais assertivas e eficientes. Algoritmos cruzam informações para oferecer descontos personalizados, aumentando as chances de fechamento de vendas de acordo com o perfil de cada cliente.
Na ponta final, essa inovação se manifesta na criação de assistentes de compra que auxiliam o consumidor a escolher produtos específicos para suas necessidades, como rotinas para cabelos danificados. Essas ferramentas não apenas orientam o usuário, mas também adicionam automaticamente os itens recomendados ao carrinho de compras, facilitando a experiência e promovendo uma relação mais direta e eficiente entre marcas, varejistas e consumidores. Assim, o setor de higiene e beleza busca equilibrar a necessidade de manter as vendas em alta, mesmo em tempos de restrição econômica, apostando em inovação tecnológica e estratégias de segmentação para atender às expectativas do mercado.