A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) determinou, na última terça-feira (1º de setembro de 2026), a suspensão imediata e por prazo indeterminado das operações da Total Linhas Aéreas, companhia brasileira especializada no transporte aéreo de cargas. A medida foi tomada devido à existência de condições de risco e a pendências relacionadas à segurança operacional da empresa, que presta serviços essenciais aos Correios, incluindo transporte de encomendas, o que levanta preocupações sobre a continuidade do serviço de entregas da estatal.
A Total Linhas Aéreas, fundada há cerca de 38 anos, é reconhecida por sua atuação no transporte de cargas, operações de fretamento, transporte postal e soluções para setores como indústria e comércio eletrônico. Sua frota, composta por quatro aviões Boeing 737-400F, opera em oito bases estratégicas distribuídas pelo Brasil, e a companhia já trabalhou com grandes empresas brasileiras, incluindo a Petrobras, além de prestar serviços para os Correios, que dependem de sua capacidade logística para o envio de encomendas.
A suspensão foi oficializada por meio da Decisão nº 755, emitida pela Anac em 1º de setembro, após a constatação de falhas classificadas como críticas e de alto risco, relacionadas à aeronavegabilidade continuada, aos sistemas de segurança operacional e à proteção contra atos de interferência ilícita. Entre os problemas apontados estão questões que comprometem a segurança da aviação civil, levando a agência a determinar a necessidade de ajustes na gestão e nos procedimentos internos da companhia.
Segundo o consultor de aviação Ruy Amparo, ex-diretor da TAM (atualmente Latam Airlines), a curto prazo, o impacto da suspensão pode ser minimizado por meio de ações emergenciais, como a realocação das cargas para outros fornecedores já contratados, o utilização de porões de aviões comerciais ou até o transporte terrestre por caminhões. No entanto, ele alerta que, se a suspensão se prolongar e a Total não regularizar sua situação, os Correios poderão rescindir o contrato vigente com a companhia e abrir uma nova licitação para contratação de outra aérea.
Essa possível mudança de prestador de serviços pode gerar custos adicionais para os Correios, que já enfrentam dificuldades financeiras há anos. No primeiro semestre de 2026, a estatal registrou prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões, e no total do ano passado, o prejuízo chegou a R$ 8,5 bilhões. A empresa atribui esses resultados negativos ao aumento de custos operacionais e ao provisionamento de obrigações judiciais, fatores que dificultam a manutenção de suas operações de forma sustentável.
Caso os Correios tenham que assumir custos extras com a realocação de cargas ou contratar nova companhia aérea, há possibilidade de buscar ressarcimento junto à Total Linhas Aéreas, especialmente se for comprovado prejuízo decorrente de atrasos ou perdas nas entregas. Gilberto Braga, economista e professor de Finanças do Ibmec-RJ, destaca que os consumidores afetados por eventuais atrasos podem, por sua vez, tomar medidas legais para obter ressarcimento ou indenizações, caso haja prejuízos comprovados decorrentes do descumprimento contratual.
A Total Linhas Aéreas, que opera desde 1985, possui uma reputação consolidada no setor de transporte de cargas aéreas, tendo sido considerada a melhor companhia aérea regional do Brasil em 2006 e 2007. Sua atuação inclui ainda operações de fretamento e transporte postal, além de fornecer soluções para o comércio eletrônico e a indústria. Contudo, a recente suspensão de suas atividades pela Anac ocorre após a constatação de problemas de segurança, que envolvem a necessidade de adequações na gestão, na administração de seus gestores e na comprovação do funcionamento de seus sistemas de segurança operacional.
A agência reguladora determinou que a empresa regularize aspectos essenciais, como a recomposição de seu quadro de administração, validação dos gestores pela Superintendência de Padrões Operacionais, além de comprovar a eficácia do Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO) e do Sistema de Análise e Supervisão Continuada (SASC). Também é exigido que a Total regularize os controles de aeronavegabilidade das aeronaves e os processos internos de identificação, reporte e tratamento de riscos operacionais. A retomada das operações só ocorrerá após a comprovação do cumprimento de todas essas exigências, não sendo a suspensão definitiva.
A CNN Brasil entrou em contato com a Anac e a Total Linhas Aéreas para obter posicionamentos sobre a decisão, mas até o momento, não houve resposta oficial.