Os Estados Unidos, que atualmente dependem do petróleo venezuelano para suprir parte de sua demanda energética, anunciaram uma estratégia inédita para fortalecer sua presença na indústria petrolífera do país sul-americano. Após dificuldades em convencer empresas americanas a investirem na Venezuela, mesmo após a captura de Nicolás Maduro em janeiro e sua subsequente prisão sob acusações de conspiração, o governo de Donald Trump revelou um acordo que pode transformar o cenário energético bilateral. A iniciativa prevê que os Estados Unidos assumam uma participação majoritária — de 55% — em uma joint venture com uma operadora venezuelana privada, por meio de um contrato de arrendamento de campo petrolífero com duração de cem anos. Este movimento pode criar a segunda maior empresa de petróleo do mundo, considerando reservas comprovadas, atrás apenas da Saudi Aramco, e representar uma mudança significativa na dinâmica de cooperação energética entre os dois países.
A Venezuela é uma peça-chave na estratégia de segurança energética dos Estados Unidos, que mais do que quadruplicaram suas importações de petróleo do país neste ano, atingindo cerca de 600 mil barris por dia, o maior volume desde que as sanções americanas foram impostas em 2019. Atualmente, a Venezuela ocupa a segunda posição entre os principais fornecedores de petróleo para os EUA, ficando atrás apenas do Canadá, segundo dados da Energy Information Administration (EIA). O acordo anunciado por Trump visa consolidar essa relação, garantindo às empresas americanas uma maior segurança jurídica para investir na Venezuela, país que detém 303 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, das quais 65 bilhões ficarão sob controle da nova joint venture. Essa quantidade supera o dobro dos 46 bilhões de barris atualmente controlados pelos Estados Unidos.
Apesar de ser um grande produtor e exportador líquido de petróleo, os Estados Unidos ainda importam volumes expressivos do petróleo venezuelano devido às diferenças na composição do petróleo de ambos os países. O petróleo americano, predominantemente leve e doce, é ideal para a produção de gasolina, enquanto o venezuelano, de óleo pesado e ácido, é mais facilmente destilado para uso em asfalto, óleos industriais, diesel e combustível de aviação. Muitas refinarias americanas, construídas na década de 1970, foram projetadas especificamente para processar o petróleo venezuelano, o que torna o aumento das importações uma estratégia para aumentar a eficiência dessas instalações. Além disso, esse movimento é especialmente relevante após a interrupção de cerca de 20% do fornecimento global de petróleo devido às tensões com o Irã, tornando os Estados Unidos fornecedores de última instância para diversos países, especialmente na ausência de fontes confiáveis de combustível de aviação e diesel provenientes do Oriente Médio.
Outro fator estratégico é a possível contribuição do acordo para a recuperação da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) dos Estados Unidos, atualmente no seu nível mais baixo desde 1982, período em que o governo Reagan a abastecia. Essa redução aumenta a vulnerabilidade dos EUA em caso de novas crises energéticas. Desde a captura de Maduro, a produção de petróleo na Venezuela vem apresentando sinais de recuperação, atingindo cerca de 1,2 milhão de barris por dia, um aumento de aproximadamente 150 mil barris diários em relação ao início do ano. Contudo, esse volume ainda está longe dos 3,5 milhões de barris diários que o país produzia antes da ascensão socialista no final dos anos 1990, quando a infraestrutura petrolífera venezuelana foi severamente deteriorada pelos regimes de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Para reverter esse quadro e alcançar os níveis históricos de produção, seria necessário investir bilhões de dólares ao longo de uma década, algo que poucas empresas americanas estão dispostas a fazer, dado o ambiente político instável e a corrupção endêmica no país.
A única companhia americana com presença contínua na Venezuela é a Chevron, que manteve operações apesar das sanções e da crise política. A expectativa é que o envolvimento direto do governo dos EUA na propriedade de um campo de petróleo venezuelano possa oferecer maior segurança jurídica às grandes petrolíferas, incentivando novos investimentos. Especialistas, como Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, destacam que essa mudança pode acelerar o retorno de empresas como a Chevron ao país. No entanto, outros analistas, como Rob Thummel, da Tortoise Capital, alertam que os investimentos na Venezuela deverão competir por recursos com projetos em outras regiões, levando anos até que resultados concretos de aumento na produção sejam evidentes.
Apesar do potencial de revitalização econômica, a Venezuela enfrenta obstáculos consideráveis. A instabilidade política, a corrupção e a resposta insatisfatória ao recente terremoto que causou milhares de vítimas agravaram a crise humanitária e dificultam a atração de investimentos estrangeiros no setor petrolífero. Ainda assim, a participação de 45% do país no novo acordo pode representar um argumento de venda para o público venezuelano, que permanece cético quanto às perspectivas de estabilidade. O governo venezuelano, que recentemente abriu sua indústria petrolífera ao setor privado, ainda enfrenta dificuldades para criar um ambiente de negócios confiável, agravadas pelo impacto do terremoto e pela crise social. Segundo especialistas, embora essa parceria não resolva todos os problemas, ela pode ser um passo importante para a recuperação econômica do país, que depende de uma indústria petrolífera forte para superar a crise humanitária e reconstruir sua infraestrutura.