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Inadimplência do crédito consignado privado atinge recorde histórico de 10% segundo Banco Central

•17/12/2024REUTERS/Adriano Machado

A inadimplência do crédito consignado destinado a trabalhadores do setor privado atingiu 10% em julho, marcando o maior nível já registrado pelo Banco Central desde o início da série histórica, em março de 2011. Este é também o primeiro momento em que o indicador ultrapassa a marca de dois dígitos, revelando uma deterioração significativa na qualidade dos empréstimos concedidos nesta modalidade de crédito.

O aumento acelerado da inadimplência chamou atenção não apenas pelo patamar atingido, mas também pela velocidade com que ocorreu. Em apenas um mês, a taxa subiu 1,3 ponto percentual, passando de 8,7% em junho para 10% em julho. Para contextualizar, há um ano, em julho de 2022, o índice era de 6,2%, o que representa um crescimento de 3,8 pontos percentuais em doze meses. Essa rápida elevação evidencia uma tendência preocupante no comportamento dos tomadores de crédito privados, especialmente considerando o período de expansão do saldo da carteira, que também se intensificou.

A deterioração da inadimplência no consignado privado contrasta com o comportamento das demais modalidades de crédito consignado. Entre servidores públicos, por exemplo, a inadimplência permaneceu relativamente estável, passando de 2,6% em junho para 2,7% em julho. No caso do crédito do INSS, o índice subiu de 1,9% para 2,1% no mesmo período. Quando considerados todos os tipos de consignado, a taxa média ficou em 3,6%, ainda bastante inferior ao registrado no setor privado, mas indicando uma tendência de aumento também nesse segmento.

O crescimento da inadimplência no consignado privado é particularmente relevante ao se comparar com o índice de inadimplência do crédito livre para pessoas físicas, que chegou a 7,8% em julho, e se aproxima do crédito pessoal não consignado, cujo índice é de 10,7%. Apesar do desconto direto na folha de pagamento teoricamente reduzir o risco de inadimplência, a diferença entre o consignado privado e o crédito livre caiu para apenas 0,7 ponto percentual, sinalizando uma convergência preocupante.

Os dados preliminares de junho e julho ainda podem ser revisados pelo Banco Central, mas já indicam uma tendência de alta na inadimplência. Parte do aumento foi atribuída pelo governo a falhas operacionais relacionadas à troca de emprego dos trabalhadores. Quando um empregado muda de empresa, o desconto da parcela não migra automaticamente para o novo vínculo, gerando atrasos que permanecem mesmo com o trabalhador empregado. A expectativa era de que uma correção operacional, prevista para agosto e sob responsabilidade da Dataprev, reduzisse esse problema. Entretanto, os dados de julho ainda refletem essa questão, dificultando a avaliação do impacto das melhorias operacionais.

A expansão do consignado privado também contribuiu para o aumento do risco de inadimplência. Em julho, o saldo da modalidade atingiu R$ 117,7 bilhões, representando uma alta de 3,8% em relação a junho. Em um ano, o saldo mais que dobrou, passando de R$ 49,9 bilhões em julho de 2022 para R$ 117,7 bilhões em julho de 2023, uma expansão de 2,4 vezes. Além disso, as concessões de novos créditos continuaram em ritmo acelerado, somando R$ 8,8 bilhões em julho, contra R$ 7,7 bilhões em junho, indicando uma retomada na oferta de empréstimos mesmo diante do aumento da inadimplência.

A taxa média de juros permaneceu praticamente estável em 53,9% ao ano, o que demonstra que o crescimento da carteira não foi acompanhado por uma elevação proporcional nas taxas cobradas. A combinação de uma carteira em forte expansão, concessões ainda elevadas e inadimplência crescente sugere uma preocupação crescente com a saúde financeira dos tomadores de crédito e o risco de perdas para as instituições financeiras.

O aumento da inadimplência ocorre em um momento em que os empréstimos concedidos ao longo de 2023 começam a amadurecer, revelando uma parcela maior de atrasos superiores a 90 dias. Essa situação reforça a necessidade de monitorar não apenas o volume de concessões, mas também a qualidade da carteira de crédito, especialmente no segmento de consignado privado, que, apesar de sua rápida expansão, apresenta sinais de deterioração acentuada.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade