As autoridades financeiras do Japão realizaram, no último mês, um investimento sem precedentes de aproximadamente 15,4 trilhões de ienes, equivalentes a US$ 96,5 bilhões, em operações de intervenção no mercado cambial com o objetivo de proteger a cotação do iene. Os dados, divulgados nesta sexta-feira (28) pelo Ministério das Finanças japonês, evidenciam a determinação do governo de combater a forte desvalorização da moeda, que atingiu níveis mais baixos em quatro décadas. Essa estratégia visa evitar que a depreciação do iene prejudique os lucros das principais empresas exportadoras do país e aumente os custos de importação, especialmente de energia.
A intervenção maciça reflete a preocupação de Tóquio com a deterioração do valor do iene, que, nos últimos meses, tem colocado em risco a competitividade do setor exportador japonês e aumentado a vulnerabilidade econômica diante de fatores externos. Com o Japão importando cerca de 95% de sua energia, principalmente do Oriente Médio, a desvalorização do iene eleva significativamente os custos de importação, agravando a situação diante das tensões geopolíticas, como a guerra no Irã, que ameaça o abastecimento energético do país.
Apesar do esforço para sustentar o valor do iene, o ritmo de aperto monetário adotado pelo Banco do Japão permanece relativamente lento. A instituição mantém as taxas de juros em patamares baixos, em contraste com mercados como o dos Estados Unidos, onde as taxas de juros estão mais elevadas. Essa política incentiva investidores a continuarem financiando transações globais com o iene barato, contribuindo para a persistente desvalorização da moeda japonesa.
O Banco do Japão, em sua última reunião de política monetária realizada em julho, decidiu manter os juros inalterados, embora seus dirigentes tenham sinalizado a possibilidade de acelerar o ritmo de aperto no futuro, caso a situação assim exija. Segundo análises de mercado, há uma probabilidade de 65% de que o banco central eleve os juros na próxima reunião, prevista para setembro, refletindo a crescente preocupação com o impacto da moeda fraca na economia doméstica.
A intervenção do Banco do Japão, que incluiu compras de ienes realizadas nos dias 30 e 31 de julho — inclusive uma ação conjunta com os Estados Unidos —, ocorreu em um momento em que o valor do iene atingia níveis não vistos há 40 anos, chegando a aproximadamente 164 por dólar. Dados do Banco do Japão indicam que a intervenção naquele período pode ter atingido 9,6 trilhões de ienes, superando o recorde diário de 6,3 trilhões de ienes registrado em 30 de abril deste ano. Após a intervenção, o valor do iene disparou de cerca de 163 por dólar para até 155,20 em 3 de agosto, antes de se estabilizar em torno de 159,50 desde 10 de agosto.
Para reforçar sua capacidade de intervenção, o Japão recebeu apoio dos Estados Unidos, que disponibilizaram um mecanismo de suporte do Federal Reserve, criado durante a pandemia de Covid-19. Esse mecanismo permite que o Banco do Japão aumente a liquidez em dólares sem precisar vender diretamente títulos do Tesouro dos EUA, facilitando ações de estabilização cambial de grande escala. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou que Washington está disposto a fazer o que for necessário para apoiar os esforços do Japão, alertando que a forte subvalorização do iene pode gerar outros desequilíbrios econômicos ou desencadear desvalorizações competitivas de moedas de outros países.