Nos anos finais da década de 1980, realizar pagamentos internacionais enfrentava obstáculos burocráticos que dificultavam a circulação de recursos entre países. Nesse contexto, a Editora Abril adquiria charges do cartunista argentino Quino, criador da personagem Mafalda, para a edição brasileira da revista Playboy. No entanto, após várias publicações, os pagamentos pelos direitos autorais não eram efetuados, levando o próprio Quino a formalizar uma reclamação ao então editor da filial carioca, Edgard Catoira. A resposta envolvia a complexidade do sistema financeiro brasileiro na época, que dificultava transferências de recursos para o exterior, especialmente a Argentina.
Naquele período, pagar fornecedores argentinos no Brasil era um procedimento burocrático que não se concluía em Buenos Aires, mas passava pelo Banco Central do Brasil. O processo envolvia a emissão de uma guia na CACEX (Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil), contratação de contrato de câmbio com bancos autorizados e a realização de operações por meio do Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos da ALADI, a Associação Latino-Americana de Integração. Essas transações eram acumuladas em débitos e créditos entre os bancos centrais do Brasil e da Argentina, com liquidação a cada quatro meses em dólares, em Nova York, configurando uma espécie de “tango financeiro” que dificultava a liberação de fundos.
Diante da demora, Quino enviou uma carta às autoridades monetárias brasileiras e ao banco responsável, solicitando a liberação do pagamento. Na carta, abaixo de sua assinatura, havia um esboço da Mafalda ajoelhada, apontando para a rubrica “Juro que es”, um gesto de súplica que simbolizava sua frustração com o atraso.
No mesmo período, o Brasil enfrentava uma denúncia do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), no âmbito da Seção 301, relacionada à reserva de mercado brasileira no setor de informática. A investigação acusava leis e políticas brasileiras de restringir o comércio e o investimento americanos, sendo considerada uma afronta à soberania nacional. O então presidente José Sarney chegou a visitar Washington para negociar possíveis sanções.
A controvérsia envolvia também ações judiciais, como a da Apple contra a extinta Unitron Eletrônica, alegando que a utilização de infraestrutura norte-americana na produção brasileira de computadores acarretava tarifas elevadas. Indústrias farmacêuticas brasileiras também se manifestaram, reforçando a acusação de desrespeito às patentes das empresas americanas, o que justificaria a imposição de tarifas restritivas ao comércio bilateral.
Karl Marx, em seu livro “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, de 1852, afirmou que “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Na época, as acusações dos Estados Unidos eram fundamentadas na proteção de uma indústria incapaz de competir livremente. Hoje, a narrativa mudou: o alvo é uma infraestrutura financeira pública que, ao facilitar transferências rápidas e sem burocracia, provoca novas reclamações.
Uma das justificativas dos Estados Unidos para aplicar tarifas de 25% sobre o Brasil, no âmbito da Seção 301, é o uso do Pix, sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central em 2020. Os americanos alegam que a infraestrutura de pagamentos do Brasil, regulada e operada pelo próprio Banco Central, criou uma vantagem competitiva que prejudica empresas de pagamento americanas. Essa acusação é vista como infundada por especialistas, que consideram a alegação uma tentativa de justificar medidas protecionistas.
Anos depois, o Brasil conseguiu resolver um dos principais problemas apontados por Quino. Com o Plano Real, a estabilização monetária, a modernização do sistema de pagamentos, a expansão do mercado de cartões, a adesão ao sistema Swift e, por fim, a implementação do Pix transformaram significativamente a circulação de dinheiro.
O Pix, lançado oficialmente em 2020, representou uma revolução na infraestrutura de pagamentos, ao criar uma rede pública e aberta para transferências instantâneas, eliminando a necessidade de intermediários em operações financeiras básicas. Quarenta anos após o episódio de Quino, a narrativa de acusações e obstáculos se inverte: enquanto antes o Banco Central era visto como o obstáculo para o pagamento de direitos autorais, hoje é considerado responsável por facilitar transferências rápidas e sem burocracia, inclusive para a Argentina.
Recentemente, o Brasil ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC) com um processo contra as acusações dos Estados Unidos. O governo brasileiro argumenta que as alegações de prática desleal relacionadas ao Pix não se sustentam e que a infraestrutura de pagamentos do país é uma conquista que promove eficiência e inclusão financeira. Dentro dessa argumentação, há um trecho que remete ao rascunho de Quino, com Mafalda ajoelhada e suplicante, acompanhando a defesa do Brasil: “Juro que es”.