O conflito na Faixa de Gaza já dura quase dois anos e suas consequências começam a impactar a base de apoio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O presidente enfrenta crescentes chamadas, inclusive de membros de seu próprio partido, para que o Brasil adote uma postura mais firme em relação ao governo israelense.
Durante uma visita oficial à França nesta semana, Lula foi novamente questionado sobre o que o Brasil pretende fazer em resposta às ações de Israel no território palestino. Ele recebeu uma carta assinada por 12 mil cidadãos brasileiros, incluindo políticos, figuras públicas e ativistas, que pedem a imposição de sanções ao governo de Benjamin Netanyahu, o que poderia resultar na quebra das relações diplomáticas entre Brasília e Tel Aviv.
Essa iniciativa, promovida pelo movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), solicita não apenas o fim das relações diplomáticas e comerciais, mas também a implementação de um embargo militar contra Israel. Para os ativistas que defendem a causa palestina, essa ação representa uma continuidade de um processo de deterioração nas relações desde o início do terceiro mandato de Lula.
“Lula tem se manifestado de forma mais crítica em relação a Israel. Durante sua presidência no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil tentou intermediar um cessar-fogo em Gaza. O governo cancelou uma licitação com uma empresa israelense para a aquisição de veículos blindados e não temos embaixador em Israel há mais de um ano. Todas essas decisões somam-se”, afirmou Ualid Hussein Ali Mohd Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina (Fepal), em entrevista ao Metrópoles.
Diante desse cenário e do que ele chama de “deterioração tácita” nas relações diplomáticas, Ualid defende que se deve avançar em direção a um rompimento, “até que o genocídio na Faixa de Gaza cesse ou que se chegue a uma solução de dois Estados”.
Entre os que apoiam essa postura estão parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT), como Luiza Erundina (PT-SP), Reimont (PT-RJ) e Jeferson Fernandes (PT-RS), que clamam por uma resposta mais contundente do governo brasileiro em relação ao primeiro-ministro israelense.
Embora haja pressão por uma atitude mais firme, os parlamentares reconhecem os desafios que o Palácio do Planalto enfrenta para romper relações diplomáticas com Israel. Uma das propostas em discussão é a suspensão da venda de armamentos e munições para o país. De acordo com dados do Comexstat, as exportações brasileiras para Israel totalizaram US$ 725,1 milhões em 2024, sendo que US$ 1,37 milhão foram destinados a armamentos.
O deputado federal Nilto Tatto (PT-SP) defende o isolamento do governo israelense, citando o exemplo da África do Sul durante o apartheid, um período marcado por segregação racial. “O Brasil mantinha relações comerciais, inclusive na área de armamentos, que podem e devem ser interrompidas. O país pode suspender exportações estratégicas e se posicionar em fóruns multilaterais”, afirmou.
Tatto destacou que ações concretas de vários países ajudaram a pressionar o regime sul-africano durante o apartheid. “Um dos primeiros boicotes ocorreu no esporte. Esse tipo de atitude, somada a iniciativas globais, teve um impacto real”, concluiu.
O deputado Rogério Correia (PT-MG) acredita ser necessário que o Brasil rompa relações com Israel e apoia a carta assinada por diversas personalidades e entidades. “Isso não é apenas uma questão ideológica; é uma questão humanitária. O que está acontecendo é de indignar qualquer um. A questão humanitária se tornou tão premente que, na minha visão, o governo deveria sim interromper relações com Netanyahu”, defendeu.
Arlindo Chinaglia (PT-SP) também concorda com a necessidade de pressão internacional, mas ressalta que Lula enfrenta dificuldades para romper com Israel, considerando a longa relação histórica entre os dois países. “É preciso avaliar as consequências. Uma ruptura afetaria interesses econômicos, comerciais e culturais. Há muitos brasileiros de origem judaica que não se identificam com as ações de Netanyahu”, ponderou.
Ele acrescentou que é essencial que outras nações se manifestem em relação às ações militares de Israel contra os palestinos, fazendo uma comparação com a resposta da Europa diante da Guerra na Ucrânia. “Esse assunto precisa ser abordado em fóruns internacionais. A Europa se cala sobre a situação dos palestinos, mas reagiu com firmeza à invasão da Ucrânia. Não estou fazendo um julgamento, mas a defesa de um povo que está sendo dizimado merece uma resposta mais enérgica”, concluiu.
Em maio, a Espanha recebeu representantes de 20 países para discutir a criação de um Estado palestino, e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, descreveu como “massacre” o que ocorre em Gaza. “Ninguém poderá alegar desconhecimento das atrocidades, que são transmitidas diariamente ao vivo”, afirmou.
Na mesma ocasião, o ministro espanhol José Manuel Albares Bueno sugeriu a adoção de um embargo à venda de armas a Israel como forma de pressionar Netanyahu a cessar os ataques contra o território palestino.