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Lições sobre a percepção das cores: a conexão entre arte e ciência

stilllifephotographer via Getty Images

*Este artigo é de autoria da professora de física Sasha Rakovich, do King’s College London, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.

Enquanto dirigem, muitas pessoas acreditam saber exatamente quais cores estão percebendo: o semáforo vermelho à frente, o carro amarelo na faixa ao lado ou as folhas verdes na calçada. No entanto, essa visão comum sobre a cor como uma característica intrínseca dos objetos é, na verdade, uma simplificação. Cada um de nós experimenta as cores de maneira única, pois a cor é uma construção perceptual gerada pelo nosso cérebro.

A cor resulta da interação entre materiais, luz e a mente humana. A maneira como um objeto absorve e reflete a luz influencia o que chega aos nossos olhos, e essa informação precisa ser processada pelo cérebro. Além disso, a forma dos objetos e o contexto em que os encontramos podem afetar a nossa percepção das cores. Se você já comprou uma tinta que parecia perfeita na loja, mas acabou não correspondendo à sua expectativa nas paredes, você já vivenciou esse fenômeno.

Recentemente, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley demonstrou essa ideia de que a cor é uma experiência subjetiva. Utilizando lasers, eles conseguiram manipular a percepção visual dos participantes, fazendo-os ver uma nova cor chamada “olo”, um tom de azul-esverdeado. Para isso, os cientistas ativaram células fotorreceptoras específicas na retina responsáveis pela detecção de luz verde, conhecidas como cones M. Além dos cones M, também existem os cones S e L, que detectam luz azul e vermelha, respectivamente. Como cada pessoa possui variações no número e na sensibilidade desses cones, a experiência de cor é, portanto, individual.

No cotidiano, a luz refletida ativa diferentes áreas da retina, estimulando os vários tipos de cones. Como os comprimentos de onda detectados pelos cones M e L se sobrepõem em uma grande proporção, ambos são acionados simultaneamente, mas em intensidades variadas. Ao direcionar a estimulação apenas aos cones M, os cientistas de Berkeley geraram uma cor “pura”, que não depende de contexto ou material, aparecendo da mesma forma para diferentes indivíduos.

Entretanto, essa não é a única evidência que ilustra o papel do cérebro na percepção das cores. A deuteranomalia, o tipo mais comum de daltonismo vermelho-verde, ocorre devido a uma sobreposição excessiva entre os cones M e L, dificultando a distinção de cores nessa faixa, sem afetar a clareza ou o brilho.

A linguagem também pode influenciar como percebemos as cores, afetando a facilidade com que discriminamos tonalidades, especialmente quando as línguas variam em suas categorias ou rótulos de cores. Isso ressalta a diferença entre uma propriedade objetiva e a interpretação cerebral.

A busca dos artistas por uma tinta “pura” é, na maioria das vezes, infrutífera, dado que a experiência da cor é subjetiva. O artista britânico Stuart Semple, por exemplo, afirmou ter recriado a cor olo em forma de tinta, que chamou de yolo. Contudo, ao olharem para ela, os cones M e L são ativados simultaneamente, mostrando que uma cor “pura” ainda não é alcançável.

O Semple’s Black 3.0 e outras tintas ultra-pretas são comercializados como opções de preto “puro”, absorvendo quase toda a luz com sua alta concentração de pigmentos. No entanto, ao invés de apresentar uma cor pura, elas eliminam a cor, criando uma experiência universal de “preto” ao retirar o estímulo visual.

Artistas já compreendem há muito tempo que a cor é uma questão de percepção. Mark Rothko, por exemplo, era extremamente cuidadoso em como suas obras eram exibidas, insistindo em que fossem penduradas em locais baixos, com o mínimo de paredes brancas visíveis e com iluminação controlada. Ele moldava a experiência de cor de suas obras ao controlar o brilho, o contraste e o ambiente, reconhecendo que a cor é uma interação entre material, luz e observador.

Tenho conduzido um projeto de engajamento público chamado Transcending the Invisible, que une cientistas e artistas para explorar conceitos científicos através da arte. O que mais me impressionou foi a percepção compartilhada por ambos sobre a cor como uma experiência.

Por que tantos artistas buscam criar o preto mais intenso, o azul mais vibrante ou o rosa mais marcante, mesmo sabendo que a cor não pode ser “pura” através de pigmentos? O pesquisador Austin Roorda, de Berkeley, descreveu a sensação de “uau” ao perceber algo totalmente novo ao ver a olo.

Precisamos reconhecer que cores como a yolo de Semple também podem evocar essa mesma sensação de admiração. As pesquisas em Berkeley abrem novas possibilidades para uma experiência de cor mais direta do que já tivemos. No futuro, os cientistas poderão mapear os fotorreceptores e as áreas do cérebro que processam cores, permitindo transmitir uma variedade de experiências diretas e repetíveis ao cérebro humano.

É fundamental entender que a cor não é apenas uma informação sensorial, mas algo que molda nossas emoções, memórias e conexões com o mundo. Artistas como Rothko, Van Gogh e Kandinsky já tinham uma compreensão intuitiva disso, algo que a ciência apenas começa a explorar.

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Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade