Brasileiros continuam enfrentando dificuldades para garantir proteção financeira diante de doenças, invalidez ou outros imprevistos, apesar de uma parcela da população já possuir seguros ou planos de previdência privada. Essa disparidade entre o receio de enfrentar situações adversas e o grau de preparo para elas foi tema central do XII Fórum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada, promovido pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) na última quarta-feira, dia 16 de setembro, em São Paulo. Com o tema “O Amanhã se Constrói Agora”, o evento reuniu executivos, especialistas, representantes governamentais, órgãos reguladores e entidades do setor, abordando questões relacionadas ao comportamento do consumidor, às inovações no seguro de vida universal, aos desafios na distribuição de produtos, ao futuro da aposentadoria no Brasil e às implicações do envelhecimento populacional e das transformações no mercado de trabalho.
A abertura do fórum apresentou os resultados da quarta edição da pesquisa FenaPrevi/Datafolha, realizada em julho de 2026, que ouviu 1.908 pessoas com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país, com uma margem de erro de até dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Os dados revelam uma clara discrepância entre preocupação e ação no que se refere à proteção financeira. Por exemplo, 72% dos entrevistados demonstram preocupação com a falta de acesso a atendimento médico em caso de doença, contudo, apenas 28% afirmam ter tomado alguma medida de preparação. Da mesma forma, 70% temem a morte de um familiar, mas somente 22% adotaram ações nesse sentido; enquanto 63% preocupam-se com doenças graves, 34% possuem alguma medida de proteção.
A pesquisa indica que 41% dos brasileiros possuem algum tipo de seguro ou plano de previdência privada, sendo o seguro funeral o mais comum, mencionado por 30% dos entrevistados, seguido pelo seguro de vida, citado por 18%. A previdência privada aparece em apenas 9% das respostas, evidenciando um baixo nível de adesão ao produto. Segundo Edson Franco, presidente da FenaPrevi e CEO da Zurich Brasil, a baixa contratação desses produtos não se explica apenas pela renda, mas também por fatores como a falta de educação financeira, dificuldades de planejamento e desinformação. Ele destacou que 45% dos que consideram o seguro de vida caro não sabem quanto custa o produto, e que apenas 10% fizeram uma cotação, revelando um grande gap de conhecimento e de percepção de custo.
Franco reforçou a necessidade de ampliar a proteção securitária no Brasil, especialmente em relação a produtos que garantam renda em situações de doença, invalidez ou morte prematura, além de reforçar a importância do planejamento previdenciário, especialmente diante das mudanças demográficas do país. Segundo ele, vivemos um momento em que a longevidade aumenta, trazendo desafios relacionados à aposentadoria, aos gastos com saúde e aos cuidados na velhice, que não se resumem ao aspecto financeiro, mas envolvem uma preparação adequada para o envelhecimento.
O crescimento do trabalho autônomo, microempreendedores individuais e atividades mediadas por plataformas digitais também foi destaque em um dos painéis, destacando que a dependência da capacidade de trabalho próprio torna esses profissionais mais vulneráveis a imprevistos que possam interromper sua renda. Ângela Assis, vice-presidente da FenaPrevi e presidente da Brasilprev, enfatizou a necessidade de adaptar produtos, linguagens e canais de distribuição para atender a esses públicos, incluindo coberturas para perda temporária de renda e parcerias com plataformas digitais, além de soluções híbridas que combinam diferentes tipos de proteção de forma mais acessível.
Outro painel abordou a introdução do Seguro de Vida Universal no Brasil, uma modalidade já presente em outros mercados e atualmente em fase de regulamentação no país. Participaram representantes do Ministério da Fazenda e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), debatendo a flexibilidade do produto e suas possibilidades de adaptação às necessidades dos consumidores ao longo da vida. Na sequência, discussões sobre os desafios na distribuição de seguros destacaram a importância da qualificação profissional, da tecnologia e do atendimento personalizado, com destaque para a necessidade de os corretores ampliarem seu conhecimento sobre legislação, tributação e as necessidades específicas de diferentes perfis de clientes.
A participação do setor empresarial na previdência também foi tema de debate, com dados indicando que os incentivos fiscais à previdência empresarial no Brasil estão concentrados nas empresas tributadas pelo lucro real, enquanto os planos corporativos representam menos de 10% dos ativos da previdência privada aberta. Assis citou exemplos internacionais, como Estados Unidos, Austrália e Canadá, onde a participação das empresas na formação de reservas previdenciárias é mais significativa, além de mencionar o mecanismo de “auto enrollment” no Reino Unido, que promove a inclusão automática de trabalhadores em planos de previdência, como estratégia de estímulo ao aumento das reservas.
A tarde foi dedicada ao debate sobre a necessidade de uma reforma previdenciária no Brasil, com propostas apresentadas por especialistas como Hélio Zylberstajn, da USP, e Paulo Tafner, do IMDS, abordando o envelhecimento da população, a relação entre contribuintes e beneficiários e as mudanças no mercado de trabalho. Segundo dados da pesquisa, 59% dos brasileiros que ainda trabalham desejariam se aposentar até os 60 anos, mas apenas 28% acreditam que conseguirão, enquanto 32% pretendem permanecer até os 61 anos ou mais. Além disso, 65% dos que dependem do INSS para aposentadoria não sabem ao certo quanto receberão, evidenciando a necessidade de ajustes no sistema.
Na última mesa do dia, especialistas discutiram as implicações econômicas e sociais de uma sociedade que vive mais tempo, abordando o impacto na aposentadoria, no mercado de trabalho e nos cuidados na velhice. Entre os participantes estavam o economista Eduardo Giannetti, a economista Ana Paula Vescovi, Dyogo Oliveira, da CNseg, Devanir Silva, da Abrapp, e Nilton Molina, do Instituto de Longevidade. O encontro destacou que as mudanças nas relações de trabalho, com maior presença de contratações fora do regime formal, reduzem a base de contribuições previdenciárias e dificultam a sustentação do sistema de aposentadorias.
Encerrando o evento, a FenaPrevi anunciou o lançamento do Prêmio FenaPrevi Multiplica, uma iniciativa que reconhecerá ações voltadas à educação, comunicação e engajamento em previdência e seguros. A primeira edição, sem categorias específicas, selecionará três projetos em andamento que apresentem resultados e impacto, avaliados por um comitê independente, com cerimônia prevista para o início de 2027.