A Fiocruz participou das principais discussões do World Health Summit (WHS) 2026, realizado entre 11 e 13 de outubro, em Berlim, na Alemanha. O encontro reuniu representantes de governos, instituições científicas, organizações da sociedade civil e setor privado para debater respostas coordenadas aos desafios da saúde global. Com o tema “From Crisis to Resilience: Innovating for Health” (“Da crise à resiliência: inovando para a saúde”, em tradução livre), a edição abordou a reforma da arquitetura internacional da saúde, a preparação para futuras emergências sanitárias, a produção sustentável de vacinas e o acesso equitativo a tecnologias.
A delegação da Fiocruz esteve presente na programação oficial e em eventos paralelos. Entre os temas apresentados pela instituição estiveram o fortalecimento da governança internacional da saúde, a manutenção de capacidades produtivas no período entre epidemias, a sustentabilidade da fabricação de vacinas e o desenvolvimento de soluções para prevenção, diagnóstico, tratamento e controle da dengue.
A agenda também incluiu tratativas sobre a Conferência Regional do World Health Summit de 2028, que será realizada no Rio de Janeiro sob organização da Fiocruz. O encontro brasileiro terá como tema “Saúde, democracia e equidade: construindo pontes para um futuro solidário e sustentável”.
Reforma da governança global esteve entre os principais debates
As discussões sobre financiamento, inovação, soberania em saúde e acesso equitativo orientaram os debates a respeito da reforma da arquitetura e da governança global da saúde. A vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Priscila Ferraz, participou como copresidente do Painel de Alto Nível sobre a Reforma da Arquitetura e da Governança da Saúde Global (HLP-GHAG) da sessão “The Accra Reset: A New Global Framework for Development”.
Durante a atividade, foram apresentadas as principais recomendações do painel para os processos de reforma em andamento. Priscila Ferraz defendeu que os países tenham liderança na definição de suas prioridades, enquanto as instituições regionais devem ampliar a capacidade de ação coletiva. Segundo ela, as organizações globais precisam concentrar esforços em funções que não possam ser desempenhadas de maneira eficaz por países e regiões isoladamente.
A vice-presidente também participou de uma mesa-redonda organizada pela Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). O encontro relacionou as recomendações do relatório final do HLP-GHAG aos processos de reforma em discussão na Organização Mundial da Saúde (OMS). Na ocasião, Priscila destacou os princípios da vantagem comparativa e da subsidiariedade, segundo os quais cada responsabilidade deve ser atribuída ao nível institucional mais preparado para executá-la, com mandatos, estruturas de governança e financiamento compatíveis.
Preparação para emergências incluiu ciência e dimensão social
A capacidade de transformar sinais científicos precoces em decisões e medidas de saúde pública foi discutida no painel “From Signals to Action: Scientific Readiness for the Next Infectious Threat”, promovido pela rede chilena Sentinet. Paula Reges, assessora para assuntos internacionais da Presidência da Fiocruz e integrante do Comitê Consultivo Internacional da Sentinet, debateu como a cooperação entre instituições e regiões pode contribuir para respostas coordenadas antes que ameaças infecciosas se convertam em emergências.
Em sua participação, Paula ressaltou que cooperação regional e soberania nacional não são princípios incompatíveis. O painel reuniu dirigentes da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi), da OMS, do Medicines Patent Pool e da Sentinet, além de especialistas em governança e diplomacia da saúde.
A preparação para pandemias também foi analisada a partir de seus impactos sociais no exercício de simulação “Critical Choices – Beyond the Pathogen: The Social Dimension of Pandemic Preparedness”, promovido pelo Global Health Hub Germany em parceria com a OMS. A atividade utilizou como referência surtos infecciosos de diferentes períodos históricos para examinar como decisões tomadas durante crises podem afetar a coesão social, a confiança da população e a saúde mental.
O vice-presidente adjunto de Saúde Global e Relações Internacionais da Fiocruz, Marcelo Pelajo, participou da discussão sobre as lições deixadas por emergências recentes, incluindo a pandemia da Covid-19.
Saúde digital foi debatida a partir de experiências do Sul Global
Integrante da WHS Academic Alliance desde 2025, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) contribuiu para os debates sobre estratégias de saúde digital no Sul Global. A rede reúne instituições acadêmicas dedicadas à pesquisa, à formação e à cooperação em saúde global.
O pesquisador Marcelo Fornazin, do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Ensp, coordenou e moderou a sessão “Digital Health Strategies and Outcomes in the Global South: Comparative Perspectives on Governance, Data and Institutional Capacity from Global Frameworks to Health Systems Strengthening”. O debate foi resultado de uma articulação acadêmica internacional, especialmente com instituições da China e de Moçambique.
Especialistas da academia, do setor público, do setor privado e da sociedade civil compararam experiências nacionais de formulação e implementação de estratégias de saúde digital. Também foram discutidos o nível de maturidade digital dos sistemas de saúde, a governança de dados e a infraestrutura tecnológica.
Os participantes analisaram ainda os riscos associados à adoção de novas tecnologias, com atenção especial à inteligência artificial. Entre os pontos centrais esteve a necessidade de ampliar capacidades institucionais e criar mecanismos de regulação que assegurem o uso seguro e responsável dessas ferramentas, orientado pelo interesse público, pelo fortalecimento dos sistemas públicos de saúde e pela redução das desigualdades. A Ensp também foi representada por Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde, e Margareth Gomes, da Assessoria de Cooperação Internacional da Vice-Direção de Escola de Governo em Saúde (VDEGS/Ensp).
Produção de vacinas precisa ser mantida entre emergências
A manutenção de plataformas produtivas, trabalhadores especializados e sistemas de inovação nos intervalos entre emergências sanitárias foi tema da mesa-redonda “Keeping Platforms Warm: How to Enable Sustainable Outbreak-Ready Vaccine Manufacturing”. A atividade foi organizada pela Cepi e pela Colaboração para a Regionalização da Produção de Vacinas (RVMC).
Priscila Ferraz discutiu formas de manter capacidades de produção preparadas para responder rapidamente a surtos nos níveis nacional, regional e inter-regional. Com base na experiência brasileira, ela destacou a importância de investimentos contínuos, políticas de longo prazo e cooperação entre países e regiões que disponham de capacidades complementares.
Entre as iniciativas da Fiocruz citadas no debate estiveram a plataforma de RNA mensageiro da Fundação, desenvolvida integralmente no Brasil, e a designação da instituição como Centro Regional de Treinamento em Bioprodução da OMS para as Américas.
Priscila também participou da sessão “Beyond Regional Silos: Building a Cross-Regional Dialogue for the Future of Global Health Governance”, voltada ao intercâmbio de perspectivas sobre o futuro da governança global da saúde. A partir das experiências do Brasil e da América Latina, ela ressaltou o papel da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) na articulação entre compras regionais, inovação e produção.
A agenda da vice-presidente incluiu reuniões bilaterais com a OMS, a Fundação Gates e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além da participação na cerimônia do Prêmio Virchow, voltado ao reconhecimento de contribuições para a saúde global.
Coalizão anuncia cinco projetos contra a dengue
Em evento paralelo intitulado “The Future of Dengue Technologies: 1st Call for Proposals”, a Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo apresentou avanços, desafios e possibilidades de cooperação em pesquisa, desenvolvimento e inovação para o enfrentamento da dengue. A Secretaria Executiva da iniciativa está sediada na Fiocruz.
A atividade reuniu representantes de governos, organizações internacionais, instituições de pesquisa e parceiros estratégicos, como a Autoridade de Preparação e Resposta a Emergências Sanitárias da Comissão Europeia (HERA), a Dengue Alliance, da iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), e a Collective Action on Dengue (CAD).
Foram selecionadas cinco propostas para avançar à próxima etapa da primeira chamada da Coalizão. O anúncio foi feito por Marise Nogueira, chefe da Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério da Saúde, em nome da Presidência da iniciativa. Os projetos contemplam uma vacina tetravalente de dose única, novas terapias, uma plataforma portátil de diagnóstico e estratégias de controle vetorial baseadas na disseminação de larvicida e no uso de mosquitos portadores da bactéria Wolbachia.
Luana Bermudez, gerente-geral da Coalizão, apresentou o processo de seleção. Priscila Ferraz participou do evento representando a Secretaria Executiva da iniciativa.
A relação entre pesquisa, investimento, produção e acesso foi discutida no primeiro painel da programação. Paula Reges atuou como mestre de cerimônias e moderou o debate, que contou com a participação de Maria de Lourdes Aguiar Oliveira, vice-presidente de Saúde Global e Relações Internacionais da Fiocruz e coordenadora do Consórcio Colaborativo e Aberto de Pesquisa em Flavivírus (Corc).
O painel examinou lacunas na prevenção, no diagnóstico e no tratamento da dengue, além das condições necessárias para que novas tecnologias atendam às populações mais afetadas. Maria de Lourdes afirmou que ciência, inovação, produção e acesso precisam ser tratados como partes de um mesmo ecossistema de preparação, já que prevenção, preparação e resposta não constituem etapas isoladas.
A coordenação de investimentos e ações contra a dengue também foi abordada na sessão “Defeating Dengue: From Strategic Investment to Collective Action”, promovida pela Pasteur Network com participação da CAD, da Fiocruz e da Find. O encontro marcou o lançamento do Marco Estratégico de Investimento para a Prevenção e o Controle da Dengue, que defende a ampliação do financiamento, o fortalecimento de soluções lideradas pelos países e a cooperação regional.
Maria de Lourdes Aguiar Oliveira e Paula Reges, que também é copresidente da CAD, participaram do debate sobre maneiras de transformar avanços científicos em investimentos sustentáveis para ações de saúde pública.
Fiocruz prepara conferência regional no Rio de Janeiro
Ao avaliar a participação da instituição no WHS 2026, Paula Reges destacou a integração entre pesquisa, vigilância, assistência, produção, desenvolvimento, inovação e formulação de políticas públicas como um dos diferenciais da Fiocruz. Segundo ela, essa estrutura permite articular áreas que muitas vezes são tratadas separadamente, conectando a detecção precoce de emergências ao desenvolvimento e ao acesso a tecnologias de saúde.
Em 2028, o Rio de Janeiro sediará a Conferência Regional do World Health Summit, organizada pela Fiocruz. A proposta é aproximar os debates globais das prioridades e experiências regionais em saúde. Durante o encontro em Berlim, Maria de Lourdes Aguiar Oliveira e Marcelo Pelajo Machado participaram de reuniões de alinhamento e apresentaram o projeto da conferência brasileira.