O fenômeno climático El Niño, que pode atingir níveis históricos de intensidade, apresenta potencial para afetar de forma significativa a economia brasileira em 2027, especialmente no contexto de uma safra agrícola que promete recordes. A previsão de que o episódio supere todos os registros desde 1950, com uma probabilidade de 83% para o trimestre de outubro a dezembro, segundo estimativa da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), reforça a preocupação com os efeitos de um evento de magnitude excepcional.
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a anomalia média na região Niño 3.4 do Pacífico, utilizada como parâmetro para monitoramento do El Niño, deve atingir uma média de 3,7 °C, um valor que supera o recorde anterior de 2,6 °C, registrado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. Esses indicadores indicam um fenômeno extremamente forte, uma vez que, na escala da OMM, eventos com anomalia superior a 2,0 °C são considerados muito fortes. A previsão aponta para um pico de 3,7 °C em dezembro, quase o dobro do limite considerado de alta intensidade.
Embora não exista uma classificação científica oficial para um fenômeno denominado “Super El Niño”, especialistas utilizam essa expressão informal para descrever uma condição de magnitude excepcional. Reconstruções paleoclimáticas, baseadas em registros naturais como corais, sugerem que o episódio atual pode estar entre os mais intensos já registrados, mesmo quando comparado a eventos ocorridos antes de 1950.
O impacto do El Niño também é avaliado por instituições brasileiras. O Painel El Niño, coordenado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com outras seis organizações, alerta para uma combinação de seca no centro-norte do país e excesso de chuva na Região Sul. Dados parciais do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que o número de municípios em situação de seca extrema passou de quatro para 24 em um período de um mês, refletindo uma rápida deterioração das condições hídricas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma produção de 366,6 milhões de toneladas de grãos para a safra 2023/2024, já admitindo uma redução na produtividade média devido às condições climáticas adversas. Nas principais áreas de cultivo de soja no centro-norte, o calor excessivo e a falta de água durante o desenvolvimento das plantas podem prejudicar a produção mais do que a expansão da área plantada, enquanto na Região Sul, a chuva pode beneficiar a soja, mas prejudicar o trigo.
No setor energético, a assimetria de impactos também é evidente. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projetou, para o período de 3 a 9 de outubro, uma afluência de 244% da média no Sul, 128% no Sudeste e Centro-Oeste, mas apenas 48% no Norte. Para usinas hidrelétricas como Belo Monte, a previsão indicava apenas 22% da capacidade de afluência, enquanto o reservatório do rio Madeira poderia chegar a 12% de sua capacidade máxima ao final de outubro. Esses números refletem a vulnerabilidade regional, embora não sejam previsões diretas para o custo da energia elétrica.
O histórico das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 serve como alerta, embora não seja um prognóstico para 2027. Naquele ano, o Banco Central identificou que a inflação na capital Porto Alegre superou a média nacional em 0,41 ponto percentual em maio, com essa diferença sendo praticamente revertida em junho. De maio a dezembro, a inflação na cidade ficou 0,6 ponto percentual abaixo da média do país. Na ocasião, a principal dificuldade foi o transporte do arroz colhido, enquanto atualmente o risco reside na perda de lavouras ainda em formação, cujo impacto na produção pode levar mais tempo para ser compensado.
Diante desse cenário, especialistas destacam que não é prudente justificar aumentos nas taxas de juros apenas com alertas climáticos. O Banco Central deve avaliar se o choque do El Niño contamina as expectativas de mercado e os preços, enquanto o governo precisa atuar em áreas onde a política monetária não consegue influenciar diretamente, como na gestão de recursos hídricos e na segurança alimentar. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico pode apresentar cenários de um El Niño intenso, incluindo o aumento do uso de termelétricas mais caras, enquanto a Conab detalha as perdas potenciais por cultura e região. A intensidade do fenômeno será definida pelo comportamento do Pacífico, e a capacidade de antecipação do Brasil será fundamental para mitigar os efeitos econômicos e sociais de um evento de magnitude sem precedentes.