Na véspera de anunciar uma iniciativa para reduzir a burocracia no setor de transporte espacial comercial, o ex-presidente Donald Trump adquiriu até US$ 5 milhões em títulos emitidos pela SpaceX, uma importante contratada federal liderada por Elon Musk. A transação foi revelada por registros de ética divulgados na quinta-feira e faz parte de um conjunto de 517 negociações realizadas por Trump em agosto, levantando questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses durante sua presidência.
A compra de títulos da SpaceX ocorreu em um momento de grande atenção ao setor espacial, especialmente após a assinatura de um memorando presidencial de segurança nacional por Trump, ocorrido dois dias após a aquisição. Essa medida buscava acelerar a expansão do transporte espacial americano, com previsão de mais de 1.000 lançamentos e reentradas na atmosfera até 2030, por meio de procedimentos mais ágeis de licenciamento e revisão ambiental. A SpaceX, uma das principais empresas envolvidas nesse esforço, deve se beneficiar diretamente dessas mudanças regulatórias.
Além dos títulos da SpaceX, os registros indicam que Trump também adquiriu até US$ 25 milhões em ações da Meta (antiga Facebook), até US$ 6 milhões em ações da Microsoft e uma quantidade menor de ações da Oracle. Essas negociações ocorreram semanas antes de uma reunião na Casa Branca com Elon Musk, CEO da SpaceX, e Mark Zuckerberg, líder da Meta, além de outros executivos do setor de inteligência artificial. O encontro tinha como objetivo discutir avanços e desafios nesse campo, reforçando o envolvimento de Trump com grandes nomes do setor tecnológico e de inovação.
Os especialistas em ética questionam o impacto dessas operações financeiras na conduta do ex-presidente. Richard Painter, ex-advogado de ética do governo de George W. Bush e atual professor na University of Minnesota Law School, afirmou à CNN que a aquisição de títulos por Trump poderia gerar uma aparência de conflito de interesses, mesmo sem evidências de ilegalidade. Painter destacou que, durante sua presidência, o presidente, o vice-presidente e os membros do Congresso não estavam sujeitos às mesmas leis de conflito de interesses aplicadas a outros funcionários públicos, o que agrava a preocupação sobre possíveis influências indevidas.
A Casa Branca defende que Trump não esteve diretamente envolvido na gestão de seus investimentos ou na decisão de compra dos títulos. Em nota, o porta-voz Davis Ingle afirmou que o portfólio financeiro do ex-presidente é gerenciado por instituições financeiras terceirizadas, de forma independente, por meio de contas discricionárias e algoritmos que replicam índices reconhecidos, como o Schwab 1000. Segundo ele, nenhuma influência ou decisão de Trump ou de seus familiares pode afetar essas operações, reforçando a alegação de ausência de conflitos de interesses.
Contudo, os registros indicam que, em 18 de agosto, Trump adquiriu entre US$ 1.000.001 e US$ 5 milhões em bônus sênior não garantidos da SpaceX, com vencimento previsto para julho de 2031 e taxa de juros de 5,35%. Apenas dois dias após essa compra, a Casa Branca anunciou a assinatura do memorando de segurança nacional, reforçando a percepção de uma possível conexão entre os interesses financeiros do ex-presidente e as políticas públicas que promovem o setor espacial.
Especialistas e políticos têm criticado duramente a conduta de Trump, com a senadora Elizabeth Warren afirmando que, em vez de focar na redução de custos para o consumidor, o ex-presidente estaria usando seu cargo para se beneficiar financeiramente. Warren também reforçou a necessidade de o Congresso aprovar legislação que proíba a posse e a negociação de ações por membros do Congresso e pelo presidente, para evitar que interesses pessoais influenciem decisões de governo.