Após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, o mercado financeiro reagiu de forma positiva, impulsionado pelo desempenho do Ibovespa, que superou sua máxima histórica e se manteve acima de 205 mil pontos nesta semana. Essa valorização levou parte dos investidores a revisarem suas perspectivas sobre o país, com grandes bancos de investimento estrangeiros, como J.P. Morgan, Morgan Stanley e Citi, ajustando suas recomendações para o mercado brasileiro, agora com visão mais otimista.
O consenso entre esses bancos é de que o resultado do primeiro turno, no qual o candidato Flávio Bolsonaro (PL) liderou com 47,03% dos votos, frente aos 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abre espaço para uma reforma fiscal mais estruturada. Essa expectativa de avanço na agenda de ajuste fiscal é vista como um fator que reduz o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros, uma preocupação que, segundo Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, tem historicamente elevado o risco percebido pelo mercado no país.
O J.P. Morgan foi o primeiro a sinalizar essa mudança, elevando sua recomendação para ações brasileiras de “neutro” para “overweight”, indicando aos investidores que devem aumentar suas posições no país. A instituição também revisou sua postura anterior de rebaixamento, ocorrido em agosto, e agora aponta para um cenário de risco-retorno mais favorável, atribuindo a melhora ao fato de que o resultado eleitoral reduziu a incerteza política, tornando o potencial de valorização do mercado mais atrativo em comparação com outros países da América Latina. Segundo o banco, o potencial de alta do Ibovespa pode chegar a 250 mil pontos.
O Morgan Stanley também alterou sua recomendação para compra, prevendo uma alta entre 15% e 20% do índice até o fim de 2023, caso haja avanço na política fiscal do governo federal. Ambos os bancos destacam que o momento é de “rebalanceamento” do mercado, com expectativas de uma “consolidação fiscal” que poderia diminuir o prêmio de risco e impulsionar o crescimento da Bolsa brasileira, especialmente se houver investimentos que sustentem uma estrutura econômica mais sólida. O relatório do Morgan Stanley aponta que setores como financeiro, de serviços públicos e industrial podem se beneficiar mais rapidamente, enquanto o setor de consumo deve demorar mais para refletir esses ganhos.
O Citi também elevou sua postura em relação às ações brasileiras, acompanhando a melhora de perspectiva após o resultado do primeiro turno. O desempenho do candidato Bolsonaro, que obteve 47,03% dos votos no domingo, foi interpretado como favorável ao mercado, devido às suas propostas de austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e cortes no Imposto sobre Valor Agregado (IVA). A expectativa de que seu partido, o PL, tenha bom desempenho no Senado reforça a possibilidade de aprovação de uma agenda legislativa mais alinhada com esse perfil, o que pode favorecer o avanço de reformas.
Apesar das expectativas positivas, o mercado ainda mantém uma postura de cautela. O plano de governo de Flávio Bolsonaro, que inclui medidas como uma “tesoura” nos gastos públicos e uma “PEC da Transição” voltada ao enxugamento da máquina estatal, ainda carece de detalhes claros sobre como será implementado, especialmente no que se refere ao controle de despesas e à redução da dívida pública. A equipe econômica do candidato estuda uma nova proposta de reforma tributária e corte de gastos na ordem de R$ 300 bilhões, mas o mercado reconhece que medidas impopulares podem ser necessárias para alcançar esses objetivos.
Especialistas alertam que o cenário de curto prazo ainda apresenta riscos, uma vez que a entrada de recursos estrangeiros, embora rápida em momentos de melhora de percepção, pode se reverter rapidamente diante de um aumento do risco país. Fernando Saad Benatti, estrategista da Avenue, destaca que a expectativa de uma melhora na política fiscal ainda não é suficiente para eliminar as incertezas, e que o mercado continuará atento às propostas concretas e à composição da equipe econômica de Flávio Bolsonaro após o segundo turno.
Por fim, a continuidade de uma política fiscal descompromissada e o crescimento econômico desacelerado permanecem como fatores de preocupação, reforçando a necessidade de ações concretas para consolidar as expectativas de melhora no cenário macroeconômico do Brasil.