A agência de classificação de risco Moody’s alertou que as empresas brasileiras deverão enfrentar uma redução de 3,3% em seu EBITDA — indicador que mede o lucro antes de impostos, juros, amortizações e depreciações — em 2027. Essa expectativa reflete as pressões financeiras provocadas pelo atual patamar elevado das taxas de juros no país, aliado aos impactos climáticos do fenômeno El Niño, além de fatores externos como conflitos internacionais e a crescente concorrência de produtos chineses.
Embora a taxa básica de juros no Brasil, a Selic, tenha apresentado uma redução recente, ela permanece em níveis historicamente altos, acima de dois dígitos. Essa condição limita a margem de manobra das empresas, especialmente aquelas com dívidas próximas ao vencimento nos próximos dois anos. Segundo o relatório da Moody’s, empresas que possuem vencimentos relevantes até 2028, sem acesso imediato ao mercado internacional de empréstimos, tendem a buscar alternativas como empréstimos bilaterais, captação de recursos no mercado doméstico ou outras medidas de liquidez para mitigar riscos de refinanciamento.
Dados da agência indicam que quase um terço da dívida de empresas brasileiras com rating de crédito está atrelada a taxas flutuantes, o que aumenta a vulnerabilidade diante de oscilações de juros. Os setores mais expostos incluem varejo, distribuição de combustíveis, proteína animal, agronegócio, locação de veículos, transporte, açúcar e etanol, além de distribuição e geração de energia e saneamento. Essa composição de dívidas reforça a sensibilidade das empresas às mudanças na política monetária e às condições de mercado.
No aspecto climático, o El Niño eleva os riscos para a produção agrícola e para a geração de energia elétrica. Perdas na safra podem encarecer os custos para produtores de proteína animal, enquanto a redução na quantidade de água disponível nos reservatórios, devido à menor chuva, aumenta os desafios para o setor elétrico, elevando os custos do sistema e a vulnerabilidade do abastecimento de energia. Além disso, o aumento nos preços de combustíveis e matérias-primas impacta setores como aviação, transporte e químico, que possuem elevado consumo energético, mesmo que as empresas tentem repassar esses aumentos aos consumidores.
A competitividade do setor siderúrgico brasileiro também deve permanecer sob pressão até 2027, com a crescente presença de produtos importados, especialmente da China. Segundo o Instituto Aço Brasil, as vendas internas de aço no Brasil devem cair 1,7% em 2026, enquanto as importações devem crescer cerca de 1%, atingindo um recorde de 3,3 milhões de toneladas nos primeiros sete meses do ano. A entrada de produtos estrangeiros aumenta a concorrência e dificulta a recuperação do setor, que já enfrenta desafios de mercado.
A perspectiva de incerteza para o próximo ano também se reflete na avaliação de risco das empresas. Dados de setembro indicam que aproximadamente 23% das companhias não financeiras com rating no Brasil tinham perspectivas negativas, sinalizando uma continuidade na pressão sobre a qualidade do perfil de crédito. A Moody’s destaca que a redução do endividamento dessas empresas dependerá principalmente de vendas de ativos e reestruturações de dívida, uma vez que a geração de caixa não deve ser suficiente para reverter o cenário.
Por fim, apesar da deterioração na qualidade do crédito no Brasil, a agência observa que a taxa de inadimplência na América Latina permanece alinhada às médias globais e abaixo dos níveis observados em 2023 e 2024. Essa estabilidade, segundo a Moody’s, reflete uma resiliência relativa do mercado regional frente às dificuldades econômicas e financeiras enfrentadas pelas empresas brasileiras.