O crescimento do envolvimento de jovens com apostas online tem provocado preocupação entre especialistas e instituições de apoio, evidenciando um aumento na procura por ajuda para lidar com dependência de bets. Segundo Luiz Carlos, membro do grupo de apoio Irmandade Jogadores Anônimos, há uma crescente presença de adolescentes, incluindo crianças de apenas 14 anos, buscando auxílio para conter o vício. Ele relata que, atualmente, jovens de diversas faixas etárias, entre 15 e 35 anos, têm procurado suporte, indicando a disseminação do problema em diferentes idades.
Um caso emblemático é o do jovem Gustavo Pereira, de 24 anos, que iniciou suas apostas aos 18 anos e, ao longo de seis anos, perdeu cerca de meio milhão de reais devido à compulsão. Gustavo revela que, na época, chegou a transformar R$ 10 mil em R$ 300 mil, mas a ganância e o vício o levaram a perdas financeiras e problemas de saúde mental, incluindo depressão e síndrome do pânico. Atualmente, ele está há dois meses sem apostar e trabalha vendendo café nas ruas de Lages, Santa Catarina, dedicando-se a superar o vício e ajudar outras pessoas a enfrentarem dificuldades semelhantes.
Especialistas destacam que o fácil acesso às plataformas de jogos pelo celular aumenta a vulnerabilidade dos jovens às apostas online. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelam que uma em cada cinco crianças no mundo inicia apostas em jogos online até os 11 anos, chegando a 78% a partir dos 12 anos, números que permanecem atuais desde 2021. No Brasil, uma pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação em 2023 indicou que 9,5% dos estudantes do ensino fundamental e médio fizeram sua primeira aposta aos 11 anos, com quase metade dos alunos do terceiro ano do ensino médio já tendo apostado.
Além disso, estudos do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) apontam que canais voltados ao público infantil exploram a vulnerabilidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais. A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o cérebro do jovem ainda está em formação, o que aumenta sua susceptibilidade aos apelos de apostas e jogos de azar. Enquanto o sistema de recompensa, ligado à liberação de dopamina, funciona em ritmo acelerado, as regiões responsáveis pelo controle de impulsos e avaliação de riscos só amadurecem por volta dos 20 anos.
A experiência de Luiz Carlos, que começou a jogar na década de 1980 com máquinas de videopôquer, demonstra que o vício em jogos de azar evoluiu com o tempo. Na época, o vício se manifestava em máquinas físicas, enquanto hoje, o acesso é facilitado pelo celular, permitindo que o cassino esteja na palma da mão. Luiz Carlos, que está há 15 anos sem apostar, compara o impacto do jogo na época com o cenário atual, onde a tecnologia potencializa o risco de dependência.
Dados do IBICT indicam que, atualmente, pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, com quase metade deles endividados por causa do hábito. Relatos como o de Rogério, de 53 anos, mostram que a percepção de inofensividade das apostas se transforma à medida que o vício compromete a estabilidade financeira e emocional. O diretor do instituto, Tiago Braga, reforça que as apostas online representam um gasto, não um investimento, e que o descontrole aumenta o risco de endividamento e ideação suicida.
O impacto das apostas no âmbito educacional também é motivo de preocupação. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) revela que 34% dos estudantes consideram que precisariam parar de apostar para iniciar uma graduação em 2026. Entre os que já cursam o ensino superior, 14% relataram atrasos ou trancamentos de cursos devido às despesas com bets. Essas dificuldades financeiras interferem no acesso e na permanência na educação superior, além de comprometer investimentos em cursos, idiomas e atividades físicas.
Para enfrentar o problema, o governo federal sancionou em setembro de 2025 o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como Lei Felca, que entrou em vigor em março de 2026. A legislação reforça a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e o Estado, incluindo mecanismos de verificação de idade mais confiáveis e restrições ao acesso de menores a jogos de azar e loot boxes. Especialistas como a advogada Luana Mendes destacam a importância da educação digital, que deve envolver o ensino de boas práticas e o fortalecimento da relação de confiança entre pais e filhos.
A regulamentação também impõe maior responsabilidade às instituições de ensino, que devem reforçar a cidadania digital e podem ser responsabilizadas por omissões diante de problemas como cyberbullying. A publicidade por influenciadores digitais, especialmente voltada a crianças e jovens, é considerada um risco, uma vez que muitas vezes é interpretada como recomendação confiável, dificultando a percepção de que se trata de publicidade.
Por fim, especialistas alertam que, embora a legislação seja adequada, sua efetividade depende do cumprimento das regras por parte do Poder Público e das empresas do setor. A preocupação com o aumento do endividamento, dependência e impacto na saúde mental e na educação reforça a necessidade de ações integradas para mitigar os efeitos do crescimento das apostas online entre os jovens.