O projeto CUIDA Chagas, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concluiu suas atividades de campo após cinco anos de atuação em comunidades e sistemas de saúde de Brasil, Bolívia, Colômbia e Paraguai. A iniciativa, que teve início em 2018, buscou ampliar o acesso ao diagnóstico, tratamento e cuidado da doença de Chagas, uma enfermidade que ainda representa um grande desafio de saúde pública na América Latina. Durante esse período, mais de 81 mil pessoas foram examinadas, sendo confirmados mais de 2.660 casos de infecção, o que revelou necessidades ainda pouco atendidas pelos serviços de saúde tradicionais e destacou a importância de estratégias integradas e comunitárias para o controle da doença.
Nos cinco anos de atuação, o projeto demonstrou que ampliar o acesso à doença de Chagas exige ações além da simples oferta de testes e medicamentos. Em 31 municípios distribuídos pelos quatro países, o CUIDA Chagas promoveu uma aproximação entre a atenção primária e as comunidades, estruturando estratégias de busca ativa, fortalecendo laboratórios locais e capacitando mais de 2.500 profissionais de saúde. Além disso, realizou mais de mil atividades educativas e comunitárias, e formou mais de 100 lideranças locais, fortalecendo a participação social no enfrentamento à enfermidade.
Um dos avanços mais relevantes do projeto foi o fortalecimento do diagnóstico de Chagas congênita, que ocorre quando a transmissão ocorre de mãe para filho durante a gestação. Para isso, foram incorporadas estratégias de triagem sistemática de recém-nascidos expostos ao parasita, além do acompanhamento contínuo dessas crianças. A introdução da técnica de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) representou uma inovação importante, permitindo a detecção precoce da transmissão congênita e possibilitando o início do tratamento em seus primeiros meses de vida, período em que as chances de cura são mais elevadas.
No campo da inovação diagnóstica e terapêutica, o projeto gerou evidências que deverão subsidiar futuras políticas públicas. Um estudo de validação realizado no Brasil e na Bolívia produziu algoritmos baseados em testes rápidos, ampliando a possibilidade de diagnósticos descentralizados, especialmente em áreas remotas. Além disso, o ensaio clínico BENBRASIL, conduzido no país, avaliou a efetividade do Benznidazol — principal medicamento utilizado no tratamento — em diferentes regiões e contextos epidemiológicos, considerando a diversidade de genótipos do parasita. Os resultados finais do estudo deverão orientar recomendações nacionais de tratamento.
A iniciativa também reforçou a importância de construir respostas à doença de Chagas junto às comunidades, promovendo estratégias de comunicação, educação, busca ativa, cuidado coletivo e formação de lideranças locais. Essas ações aumentaram a adesão aos serviços de saúde e fortaleceram a participação social, levando à aprovação de três leis municipais no Brasil, que resultaram de processos participativos e de sensibilização comunitária. O projeto ainda permitiu identificar obstáculos relacionados ao mercado, à regulação, à aquisição de medicamentos e à organização dos programas de saúde, fatores que podem limitar o acesso às tecnologias e tratamentos disponíveis de maneira equitativa.
Com o encerramento das atividades de campo, inicia-se uma nova etapa focada na consolidação dos dados, na análise dos resultados e na sistematização das contribuições do projeto. O objetivo é transformar as evidências produzidas em conhecimentos que possam orientar a formulação de políticas públicas e a expansão das estratégias de combate à doença de Chagas além dos municípios diretamente envolvidos. Entre os principais desafios estão a revisão de políticas de saúde, a garantia de financiamento sustentável, a coordenação de compras e a incorporação das capacidades construídas na rotina dos sistemas de saúde.
O legado do CUIDA Chagas não se limita aos números alcançados ao longo de cinco anos de atuação, mas também à demonstração de que é possível reorganizar a resposta à doença de forma integrada, centrada nas pessoas e com participação comunitária. A continuidade desse legado depende de transformar as experiências e evidências em práticas sustentáveis, incorporando algoritmos diagnósticos, capacitações profissionais, estratégias de organização do cuidado e participação social às políticas públicas, de modo a assegurar que os avanços conquistados permaneçam na rotina dos sistemas de saúde e beneficiem as populações mais vulneráveis a longo prazo.