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Melhora no emprego e na renda oficial não se traduz em otimismo entre os brasileiros, aponta estudo

•Unsplash

Apesar de indicadores oficiais apontarem avanços no mercado de trabalho e na remuneração dos trabalhadores brasileiros, a percepção de pessimismo na população persiste. Segundo estudo do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), o emprego no país cresceu, em média, 1,3% ao ano desde o fim de 2019, enquanto os rendimentos aumentaram 1,9% ao ano no mesmo período. Além disso, a taxa de desemprego caiu de forma significativa, acumulando uma redução de cinco pontos percentuais entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2026. Esses números indicam uma melhora na condição do mercado de trabalho brasileiro, que está mais aquecido e oferece remunerações maiores do que há seis anos.

Entretanto, essa realidade não corresponde à sensação da maior parte da população, que reporta uma percepção de deterioração do poder de compra. O estudo do FGV IBRE, assinado pelos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, dedica-se a investigar esse desalinho. A principal explicação apresentada é que renda não é sinônimo de renda disponível, conceito que reflete o que sobra após o pagamento de despesas essenciais e dívidas.

Um dos principais fatores que desconstroem a narrativa de otimismo oficial é uma análise estatística que leva em conta mudanças estruturais na composição da população brasileira, como maior escolaridade e envelhecimento. Ao ajustar esses fatores, a taxa de desemprego do primeiro trimestre de 2026 subiria de 6,1% para 7,4%, e a renda, recalculada sob esse critério, seria aproximadamente 23% menor do que os números divulgados oficialmente. Além disso, ao deflacionar a renda pelo IPCA específico de alimentação no domicílio — item que representa uma parcela crescente do orçamento, sobretudo para as famílias mais pobres — os números mostram uma queda de 2,0% ao ano na renda desde o fim de 2019, ao contrário do aumento de 1,9% apresentado pelos dados oficiais. Assim, embora os indicadores agregados sugiram uma melhora na condição financeira, na prática, os trabalhadores enfrentam uma redução real na capacidade de compra de alimentos e bens essenciais.

Outro aspecto destacado pelo estudo refere-se ao aumento do endividamento das famílias. Dados do Banco Central, citados na pesquisa, indicam que o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas ao sistema financeiro atingiu aproximadamente 30%, um patamar superior aos 22% a 25% observados entre 2013 e 2019. Além disso, a parcela de crédito de modalidades mais caras — como cheque especial, crédito pessoal não consignado e cartão de crédito rotativo ou parcelado — cresceu de cerca de 18% no final de 2020 para aproximadamente 25% em 2026. Essa elevação no endividamento mais caro reflete-se na inadimplência, que atingiu 7,2% em abril de 2026, após recuar para 5,3% no final de 2024.

O aumento do endividamento e a inadimplência se refletem também nos dados da Serasa, que mostram que o número de brasileiros inadimplentes saltou de cerca de 59 milhões, em novembro de 2016, para aproximadamente 83 milhões, em abril de 2026. Essa quantidade corresponde a quase metade da população adulta do país, ante 40% há uma década. Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), revelou que 83,6% estão endividadas e 38,2% possuem contas em atraso, sendo que cerca de 18% dessas famílias não têm condições de pagar suas dívidas.

No aspecto psicológico, o estudo também apresenta dados de uma pesquisa realizada pela Genial Investimentos em parceria com o instituto Quaest, em maio de 2026. Segundo ela, 69% dos entrevistados afirmaram que seu poder de compra está menor do que há um ano, enquanto apenas 11% perceberam melhora na sua condição de vida. Sobre a relação entre renda e despesas, 33% disseram que sua renda não aumentou, e 25% relataram que ela cresceu, porém menos do que o custo de vida. Apenas 9% dos entrevistados indicaram aumento de renda superior ao aumento dos gastos, uma redução em relação aos 14% registrados na pesquisa anterior.

O conceito de renda disponível, que representa o que sobra após o pagamento de dívidas, alimentação, moradia e energia, é fundamental para entender esse descompasso. Mesmo com crescimento na renda bruta, o aumento dos custos de alimentação e o maior comprometimento com dívidas reduzem o que realmente sobra para o consumo. Assim, a percepção de que a situação financeira piorou é, em grande parte, uma consequência dessa diferença entre os indicadores oficiais e a realidade do orçamento familiar.

Essa disparidade explica por que o pessimismo persiste, mesmo diante de melhorias nos dados macroeconômicos. Para investidores e analistas, é importante acompanhar indicadores de comprometimento de renda e inadimplência, que oferecem uma visão mais fiel da saúde financeira das famílias e da economia como um todo. Além disso, compreender esse fenômeno ajuda a interpretar com maior precisão as pesquisas de confiança do consumidor, que muitas vezes refletem a percepção real da população, mais alinhada à renda disponível do que aos números de emprego e renda nominal.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade