Empresas de diferentes segmentos estão intensificando a implementação de agentes de inteligência artificial (IA) para automatizar tarefas operacionais, aprimorar a análise de dados e acelerar processos internos. Essas iniciativas foram apresentadas por executivos durante o Comex Tech Forum 2026, evento realizado nesta quarta-feira (2), em São Paulo, dedicado a discutir avanços tecnológicos, inovação e comércio exterior.
Diferentemente das ferramentas de IA tradicionais, que geralmente são utilizadas para consultas ou geração de conteúdo, os chamados agentes de IA são desenvolvidos para executar tarefas específicas a partir de comandos e informações disponíveis, apresentando diferentes níveis de autonomia e supervisão humana. Essa evolução tecnológica tem permitido às empresas otimizar processos, aumentar a eficiência operacional e liberar recursos humanos para atividades de maior valor estratégico.
No setor financeiro, o Banco do Brasil destacou o uso de um agente autônomo no processamento de câmbio. Segundo Juliano Marcatto, head global de Negócios e Soluções Internacionais do banco, a tecnologia resultou na redução do tempo de processamento de uma negociação cambial de 40 minutos para apenas quatro minutos. Ele explicou que o agente coleta, consolida documentos e informações essenciais para apoiar a análise, embora a decisão final continue sendo de responsabilidade de um profissional humano. Marcatto ressaltou que o objetivo principal da tecnologia é proporcionar maior agilidade ao processo, permitindo que os funcionários concentrem-se em decisões estratégicas e na análise de riscos.
Na área de logística e transporte, a aplicação de agentes de IA também tem se expandido. No iFood, por exemplo, a estratégia de automação resultou na criação de 12 mil agentes de IA em um período de seis meses. Camila Pinto, HR and Partner da empresa, explicou que uma das metas é permitir que os próprios colaboradores identifiquem tarefas passíveis de automação, com o intuito de liberar tempo para atividades de maior valor, como inovação, colaboração e tomada de decisões. Ela também citou o caso de uma equipe que, após a implementação de uma solução de IA para tarefas administrativas, foi realocada para projetos relacionados à tecnologia, demonstrando os benefícios da automação na reestruturação de equipes.
Na logística, a aplicação de agentes de IA ocorre principalmente na análise e conferência de documentos. Carlos Ralph, sócio-proprietário da CSS, afirmou que a empresa utiliza servidores exclusivos para operar essas ferramentas, alimentando os sistemas com documentos, procedimentos e informações rotineiras. A tecnologia tem sido empregada na geração de relatórios, verificações e sugestões de correções em processos de importação e exportação, atividades que anteriormente dependiam de trabalho manual, aumentando a precisão e a velocidade dessas operações.
No setor de compras, a empresa MANN+HUMMEL utiliza agentes de IA para coleta e análise de dados de commodities. André Rodrigues, responsável pelo procurement na América Latina, revelou que a companhia trabalha com mais de 13 commodities, e os agentes são especializados para diferenciar cada uma delas, proporcionando maior agilidade nas análises de mercado. Além disso, a tecnologia vem sendo empregada na pesquisa e homologação de fornecedores. Vanessa Casachi, diretora de Supply Chain & Operações da Integralmédica, destacou que a IA pode auxiliar na localização de fornecedores, no levantamento de contatos e na comparação de especificações de produtos, embora a decisão final continue sob responsabilidade humana, especialmente em setores que exigem avaliação presencial.
A expansão do uso de agentes de IA também levanta preocupações relacionadas à segurança, governança e proteção de dados. Rodrigues afirmou que a MANN+HUMMEL trabalha em parceria com as áreas de TI e jurídica para estabelecer limites seguros para o uso dessas tecnologias, especialmente ao lidar com dados financeiros e informações sujeitas a regras de compliance. No Banco do Brasil, Marcatto destacou a existência de uma política de ética e governança voltada ao uso responsável da inteligência artificial.
Segundo os executivos presentes no evento, a tendência é que esses agentes assumam uma parcela crescente das atividades operacionais, enquanto os profissionais permanecerão responsáveis por decisões de maior complexidade, supervisão e análise de riscos. A adoção de IA, portanto, reflete uma mudança significativa na forma como as empresas conduzem suas operações, buscando maior eficiência sem abrir mão do controle humano em pontos críticos do processo.