A seleção de aplicações financeiras vai além da simples comparação de taxas de rentabilidade, especialmente em um cenário de juros elevados, inflação persistente e ampla oferta de produtos. Decisões tomadas com base apenas no retorno prometido podem resultar em escolhas inadequadas ao perfil e aos objetivos de cada investidor. Para construir uma carteira eficiente, é fundamental adotar estratégias que envolvam planejamento, conhecimento e diversificação, conforme orienta Daniela Barreto, gerente de estratégia de investimentos do Banco Inter.
Segundo ela, o sucesso na hora de investir depende de compreender claramente o motivo pelo qual o dinheiro será aplicado. Essa compreensão influencia diretamente na escolha dos produtos financeiros mais adequados a cada situação. Barreto destaca que diversos critérios devem ser considerados antes de realizar uma aplicação, incluindo o prazo do investimento, a necessidade de liquidez e o nível de risco que o investidor está disposto a assumir. Ignorar esses fatores é uma das principais causas de insatisfação e perdas financeiras, uma vez que não existe um investimento universalmente ideal, mas sim aquele que melhor se ajusta às metas e ao momento financeiro de cada pessoa.
A estratégia de investimento deve começar pela combinação entre o horizonte de tempo e a tolerância ao risco. Para investimentos de reserva de emergência, por exemplo, a prioridade é a liquidez imediata, com opções como a caderneta de poupança, fundos de renda fixa de alta liquidez ou títulos públicos de curto prazo. Já para objetivos de médio e longo prazo, que abrangem prazos de cinco, dez anos ou mais, é possível aceitar maior volatilidade em troca de potencial de retorno superior. Nesse contexto, a composição da carteira varia de acordo com o perfil de risco do investidor, buscando equilibrar rentabilidade e segurança.
Barreto reforça que estabelecer o prazo do investimento antes de tomar decisões evita reações impulsivas durante períodos de volatilidade no mercado financeiro. Além disso, a diversificação permanece como uma das estratégias mais eficazes para mitigar riscos. Concentrar recursos em um único produto, banco ou emissor aumenta a vulnerabilidade a eventos específicos daquela instituição ou segmento. Mesmo aplicações protegidas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que oferece cobertura até determinado limite, podem demandar tempo para ressarcimento em caso de intervenção na instituição financeira. Assim, distribuir os recursos entre diferentes ativos, como renda fixa, fundos, Tesouro Direto e plataformas que reúnem múltiplas opções, ajuda a reduzir o risco de perdas significativas.
A especialista aponta que muitos equívocos ocorrem antes mesmo da aplicação financeira, sendo comum a comparação de produtos sem considerar seus riscos ou características específicas. Um investimento que oferece uma rentabilidade de “120% do CDI”, por exemplo, pode não ser mais vantajoso do que outro com menor retorno aparente, dependendo de fatores como tributação, liquidez e prazo. Em um cenário de juros elevados, ativos pós-fixados vinculados ao CDI ou à Selic tendem a prevalecer, pois acompanham a alta dos juros. Para investidores que desejam preservar o poder de compra ao longo do tempo, títulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+, desempenham papel importante ao garantir rendimento real acima da inflação.
Outro aspecto fundamental na escolha do investimento é a definição clara do objetivo financeiro. Saber exatamente para que o dinheiro será utilizado auxilia na seleção de aplicações compatíveis com o prazo e o nível de risco desejado. Essa análise conjunta evita a busca por rentabilidade excessiva em ativos que apresentam riscos incompatíveis ou liquidez inadequada. Além disso, a diversificação de ativos também contribui para reduzir a concentração de riscos em um único ativo, instituição ou classe de investimento, tornando a carteira mais equilibrada.
Embora muitos investidores iniciantes comecem por aplicações de renda fixa, Barreto enfatiza que a decisão deve considerar o perfil de risco, os objetivos específicos e o horizonte temporal de cada um. Mudanças na estratégia de investimento só devem ocorrer quando houver alteração nos objetivos, no perfil do investidor ou nas condições de mercado. Revisões periódicas são recomendadas para manter a carteira alinhada às metas, mas mudanças impulsivas podem prejudicar os resultados. Por fim, a comparação entre os investimentos deve levar em conta a rentabilidade líquida, já descontados impostos, além de fatores como liquidez, risco do emissor e compatibilidade com os objetivos financeiros do investidor.