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Nova orientação brasileira altera conduta no manejo da tireoide durante a gestação

O manejo da disfunção tireoidiana na gestação passa por uma atualização nas recomendações médicas no Brasil, que passa a seguir as diretrizes internacionais mais recentes. Gestantes que apresentarem anticorpos contra a tireoide, especificamente anti-TPO, mas mantiverem a função tireoidiana normal, não deverão mais receber tratamento preventivo com levotiroxina, hormônio sintético utilizado anteriormente como medida de precaução. Essa mudança foi fundamentada em três estudos recentes que demonstraram que o uso preventivo do hormônio nesses casos não reduz os riscos de abortamento ou parto prematuro.

As novas orientações foram divulgadas nesta sexta-feira (28), durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado no Rio de Janeiro, no painel dedicado ao manejo da disfunção tireoidiana na gestação. Elas representam uma mudança significativa na estratégia de diagnóstico e tratamento adotada até então, alinhando-se à diretriz publicada pela Associação Americana da Tireoide (ATA) em junho de 2023, quase uma década após a publicação das recomendações anteriores, de 2017.

De acordo com o novo posicionamento, gestantes com anticorpos anti-TPO positivos, mas com níveis normais de T4 — hormônio que regula o metabolismo —, não devem iniciar o uso de levotiroxina como medida preventiva. Apesar disso, a atividade da glândula continuará sendo monitorada de perto, uma vez que estudos clínicos indicam que há maior risco de desenvolvimento de hipotireoidismo ao longo da gestação. Segundo o especialista em endocrinologia, Dr. Cleo Mesa Júnior, a presença do anticorpo indica apenas uma predisposição à disfunção tireoidiana, não uma doença instalada.

Para mulheres que já apresentavam hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação permanece a mesma: aumento de aproximadamente 30% na dose habitual de levotiroxina assim que a gestação é confirmada, para garantir o controle adequado da condição. Além disso, o Brasil mantém a estratégia de rastreamento precoce de todas as gestantes, desde o início da gravidez, a fim de identificar aquelas que realmente necessitam de intervenção medicamentosa. Essa abordagem difere da recomendação da ATA, que sugere o rastreamento seletivo apenas em mulheres com fatores de risco, como idade avançada, obesidade ou múltiplas gestações anteriores.

Especialistas destacam que a estratégia brasileira busca evitar o excesso de medicação desnecessária e promover uma abordagem mais individualizada, considerando a evidência científica de que o rastreamento universal pode ser mais eficaz na identificação de alterações tireoidianas que poderiam passar despercebidas na triagem seletiva.

Outra mudança importante refere-se ao hipotireoidismo subclínico, caracterizado por níveis elevados de TSH, mas T4 livre dentro da normalidade. A partir de agora, o tratamento com levotiroxina será indicado apenas se o TSH estiver entre 4,0 e 10 mUI/L durante o primeiro trimestre da gestação, período crucial para o desenvolvimento fetal, uma vez que a dependência do hormônio materno é maior nesse estágio. Caso o diagnóstico seja feito posteriormente, no segundo ou terceiro trimestre, a orientação é apenas acompanhar a função tireoidiana, salvo se o TSH ultrapassar 10 mUI/L, momento em que o tratamento deve ser considerado.

Segundo o Dr. Cleo Mesa Júnior, não há evidências científicas que sustentem o benefício de iniciar rotineiramente o tratamento hormonal após essa fase, reforçando a necessidade de uma avaliação criteriosa do nível de TSH, T4 livre e do momento gestacional. Além disso, a recomendação internacional de repetir o exame de TSH uma a três semanas após a detecção de alterações leves visa evitar tratamentos desnecessários, pois algumas alterações transitórias podem ocorrer na gestação. No Brasil, porém, a recomendação é realizar a repetição do exame mais cedo, para não perder a janela de oportunidade de intervenção, especialmente em um sistema de saúde onde o retorno rápido nem sempre é garantido.

Por fim, a atualização dos fatores de risco para o rastreamento de alterações na tireoide reforça a necessidade de uma avaliação mais precisa. A antiga triagem baseada apenas na idade, obesidade e número de gestações anteriores foi considerada insuficiente para identificar com precisão as mulheres que realmente apresentam disfunção tireoidiana. Assim, o foco passa a ser o rastreamento de fatores mais específicos, além da atenção à ingestão de iodo, micronutriente fundamental para a produção hormonal pela tireoide.

A nova orientação recomenda a suplementação de iodo, de 100 a 150 microgramas diários, principalmente em gestantes com dietas restritivas, vegetarianas, baixo consumo de sal iodado ou condições de má absorção, já que a necessidade aumenta na gestação e na amamentação. Essa medida visa garantir níveis adequados do micronutriente, fundamental para o desenvolvimento fetal e a saúde materna, sem a necessidade de suplementação universal para todas as gestantes.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade