O programa do governo destinado a oferecer financiamento com juros reduzidos para motoristas de aplicativos e taxistas, com o objetivo de facilitar a troca de veículos, tem apresentado obstáculos na fase de implementação. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que representa as montadoras no Brasil, a principal dificuldade não está na disponibilidade de recursos financeiros, mas na avaliação de risco por parte dos bancos e na adaptação de seus sistemas internos para operacionalizar o programa.
Durante apresentação dos resultados das montadoras referentes ao mês de julho, realizada nesta sexta-feira (7), o presidente da Anfavea, Igor Calvet, afirmou que o gargalo na linha de financiamento para veículos leves não é a ausência de crédito, mas o processo de análise de risco e as garantias exigidas pelos bancos. Segundo ele, esse procedimento é padrão nas instituições financeiras, que avaliam fatores como o score de crédito, a comprovação de renda e o relacionamento do cliente com o banco, aspectos que podem atrasar ou dificultar a liberação dos recursos.
O montante total de recursos previstos para o programa é de R$ 30 bilhões, mas, até o final de agosto, apenas R$ 2,2 bilhões — o equivalente a 7,3% do total — haviam sido utilizados, conforme dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para acelerar as contratações até o prazo limite de 15 de setembro, o governo destinou um reforço de R$ 1 bilhão ao fundo garantidor, que cobre até 80% do risco das operações de crédito, na tentativa de estimular os bancos a concederem mais financiamentos.
Além do risco de crédito, Calvet destacou uma questão que chamou de “burocrática”: os bancos das montadoras, que tradicionalmente trabalham com crédito direto ao consumidor, enfrentam dificuldades em adaptar seus sistemas para trabalhar com recursos do BNDES. Essa mudança demanda um aprendizado interno, o que tem contribuído para a morosidade na liberação dos financiamentos. Segundo ele, essa necessidade de adaptação dos sistemas é uma etapa normal, mas que pode gerar atrasos no início das operações.
O presidente da Anfavea também trouxe um exemplo de experiência anterior, relacionada ao programa de financiamento de caminhões, que inicialmente enfrentou dificuldades semelhantes. Segundo Calvet, o programa de caminhões só começou a decolar após uma segunda fase, na qual as condições de financiamento foram aprimoradas e o orçamento foi ampliado de R$ 10 bilhões para R$ 21,2 bilhões. Ele explicou que, na primeira etapa, as vendas foram praticamente paralisadas devido ao período de aprendizado e ajustes nos processos, mas que, na segunda fase, quase todo o volume de recursos foi utilizado em apenas 50 dias.
Calvet concluiu que a burocracia e a adaptação dos sistemas bancários representam obstáculos naturais em processos de implementação de novos programas de crédito. A expectativa da Anfavea é que esses entraves sejam superados com o tempo, permitindo que o programa de financiamento para motoristas de aplicativos e taxistas atinja seu potencial de estímulo às vendas de veículos leves no Brasil.