Investigações recentes revelam que o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, vem evoluindo de ações violentas na fronteira com o Paraguai para operações de maior complexidade na Europa, incluindo o estabelecimento de laboratórios de refino de cocaína em países como Itália e Portugal. Apesar de ações policiais intensas, a facção mantém sua presença na fronteira paranaense, diversificando suas rotas de tráfico e ampliando sua influência internacional.
Desde 2019, o conflito na fronteira entre o Paraná e o Paraguai passou por mudanças significativas, impulsionadas principalmente pela Operação Hórus, conduzida pelo Ministério Público do Paraná. Essa operação conseguiu reduzir a atividade violenta do PCC na região, que envolvia o uso de barcos e armas para o transporte de drogas e outros contrabandos. Registros de vídeos recuperados pela CNN Brasil mostram criminosos atravessando o rio Paraná com embarcações carregadas de drogas, armas e produtos contrabandeados, além de disparos contra policiais na fronteira. Durante uma noite, cerca de 300 barcos teriam atravessado o rio com drogas, e um policial morreu durante uma troca de tiros registrada nas imagens.
Apesar do enfraquecimento temporário, o esquema do PCC na fronteira não foi completamente desmantelado. Em 2025, a polícia precisou utilizar explosivos para destruir “mini-postos” da facção na região, demonstrando a persistência do grupo. Com o fortalecimento das ações de vigilância e tecnologia na fronteira paraguaia, o PCC passou a buscar alternativas para manter suas operações, incluindo a aquisição de fazendas no Sul de Mato Grosso, avaliada em aproximadamente R$ 8 bilhões. Essas propriedades seriam utilizadas como bases de escoamento de drogas para o Porto de Paranaguá, além de outros terminais portuários privados, facilitando o tráfico internacional de entorpecentes.
Os portos de Paranaguá, Itajaí, em Santa Catarina, e Santos, em São Paulo, continuam sendo pontos estratégicos para o envio de drogas ao exterior, consolidando a presença do PCC no comércio ilegal internacional. Além disso, investigações apontam que a organização criminosa já atua com infiltrações no setor público, como exemplifica o caso de um major da Polícia Militar do Paraná, preso por corrupção passiva em setembro de 2025. O oficial, que comandava a 3ª Companhia Independente de Loanda, teria recebido cerca de R$ 200 mil para facilitar o fluxo de drogas, armas e cigarros na região de Umuarama, no Noroeste do estado.
As operações de combate ao crime organizado também revelaram a presença de laboratórios de refino de cocaína na Europa, especialmente na Itália e Portugal. Estima-se que 90% da cocaína enviada ao continente europeu seja vinculada ao PCC, que passou a exportar pasta base e realizar o refino no exterior, aumentando significativamente seus lucros. A conexão com a máfia italiana ‘Ndrangheta reforça a tese de que a facção paulista está consolidada em diversos países europeus, replicando o sistema de produção e tráfico de drogas importado de países sul-americanos, como Bolívia, Paraguai e Colômbia, e estruturado no Brasil.
Especialistas e autoridades de segurança destacam que o combate à expansão do PCC exige uma atuação coordenada entre forças nacionais e internacionais. As estratégias incluem a repressão às rotas de tráfico, o monitoramento de operações financeiras ilícitas, o fortalecimento de investigações de infiltração no setor público e o uso de tecnologia avançada para identificar e desmantelar as redes criminosas. A presença do PCC na Europa e no Brasil evidencia a necessidade de uma resposta integrada, capaz de enfrentar a complexidade de uma organização que atua em múltiplas frentes, com infiltrações na economia formal e no Estado.