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Controvérsia na FIFA: tentativa de transformação em organização empresarial provoca reação internacional e crise de confiança

•Fred Kfoury III/Icon Sportswire via Getty Images

Uma proposta de mudança estrutural na FIFA, liderada pelo presidente Gianni Infantino, provocou forte reação negativa de entidades do futebol mundial, evidenciando uma ruptura na relação de confiança com a organização. A iniciativa de criar a FIFA Forward Enterprise, uma empresa avaliada em 20 bilhões de dólares destinada à gestão dos direitos comerciais da entidade, foi apresentada como uma estratégia para ampliar receitas, incluindo a venda de uma participação de 20% a investidores privados, liderados por Joshua Kushner, cunhado de Ivanka Trump. No entanto, a proposta foi rapidamente rejeitada por várias confederações e entidades, que a consideraram “sórdida”, “opaca” e fruto de decisões tomadas nos bastidores, sem consulta às associações filiadas.

A reação negativa foi intensa e rápida. A UEFA, principal órgão do futebol europeu, criticou duramente o projeto, afirmando que ele ameaçava a transparência e a integridade da entidade, além de declarar que suas 55 associações membros boicotariam todos os torneios da FIFA até que a proposta fosse cancelada. A Confederação Asiática de Futebol (AFC) e a Concacaf também manifestaram oposição, reforçando a necessidade de discussões transparentes com as federações nacionais antes de qualquer mudança de grande impacto na gestão do esporte.

A controvérsia agravou-se em meio a uma série de episódios que evidenciam o distanciamento de Infantino das expectativas do mundo do futebol. Desde sua eleição em 2016, após a crise de corrupção que levou à renúncia de Joseph Blatter, o mandatário tem adotado uma postura de expansão do controle da FIFA, incluindo mudanças no calendário das Copas do Mundo, como a transferência do torneio de 2022 no Catar para novembro e dezembro, e a escolha de países com históricos controversos, como Arábia Saudita, para sediar eventos futuros. Essas decisões geraram descontentamento na comunidade esportiva internacional, que questiona os critérios éticos e a transparência da administração.

Outros episódios também contribuíram para o clima de insatisfação. A concessão do Prêmio da Paz da FIFA ao então presidente americano Donald Trump, em 2019, e a hesitação de Infantino diante de restrições impostas à seleção do Irã na Copa do Mundo de 2022, demonstraram uma postura que muitos interpretam como alinhada a interesses políticos e econômicos, em detrimento de princípios esportivos e de direitos humanos. Ainda, a omissão do presidente diante da proibição de um árbitro somali de atuar em solo americano reforçou a percepção de uma gestão marcada por decisões controversas.

Dentro da própria FIFA, a tentativa de implementar o projeto foi vista como uma iniciativa de poucos, com executivos como Kevin Lamour, diretor de operações, afirmando que a venda da participação de 20% era uma ação “de uma pessoa só” e que seus colegas se sentiram “enganados”. Além disso, o assessor Carlos Cordeiro, que desempenhou papel importante na organização da Copa do Mundo de 2022, renunciou em protesto contra a proposta. A situação levou também a críticas de figuras políticas, como o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, que declarou que Infantino não era a pessoa adequada para liderar a entidade.

Apesar do amplo repúdio, Infantino anunciou sua intenção de permanecer no cargo e concorrer à reeleição no próximo ano, alegando que busca envolver todas as partes interessadas no esporte. Entretanto, a crise de confiança ainda paira sobre a FIFA, com a UEFA afirmando que sua conduta durante o processo foi “irresponsável e indefensável” e acusando o presidente de governar por meio de “intimidação”. A entidade europeia anunciou que, até o cancelamento do projeto, suas 55 associações membros não participariam de torneios organizados pela FIFA.

A tentativa de implementar o novo modelo de negócios também enfrentava resistência entre as 211 federações nacionais filiadas, que deveriam votar a favor ou contra a proposta em setembro. A justificativa oficial era a de que o novo formato potencializaria receitas e permitiria uma divisão mais ampla dos lucros, com cada associação recebendo inicialmente 20 milhões de dólares. Entretanto, a lista de críticas à gestão da FIFA, compilada pela International Compliance Association (ICA), aponta para problemas de transparência, conflitos de interesse, falta de comunicação efetiva com os stakeholders e ausência de mecanismos internos de controle, reforçando a percepção de uma administração descompromissada com os princípios de governança esportiva.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade