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Estupro em Grupo: “O Desejo de Pertencer Supera a Ética”, afirma psicóloga

Getty Images

O incidente envolvendo uma jovem que sofreu um estupro coletivo por quatro homens e um adolescente em Copacabana, Rio de Janeiro, trouxe à tona um debate sobre masculinidade, pertencimento e a cultura de violência em grupo. Esse crime revela uma dinâmica que especialistas têm destacado por anos: em certos grupos masculinos, a violência sexual pode ser vista como uma forma de demonstrar força, coragem ou lealdade. Além da necessária responsabilização criminal, pesquisadores argumentam que é fundamental entender como esses comportamentos são formados e reforçados socialmente.

A psicóloga e sexóloga Adriana Araújo, de Brasília, aponta que a origem do problema reside na maneira como a masculinidade é ensinada. “É uma questão de desempenho. Desde cedo, os meninos aprendem que precisam provar sua masculinidade, e essa prova se dá por meio de poder, domínio e controle”, explica. Segundo ela, a validação masculina é fortemente influenciada pela percepção de outros homens, e, ao contrário do que se possa pensar, não se trata apenas de impressionar mulheres. O que realmente importa é ser reconhecido pelos pares como um “homem de verdade”, que não hesita e não demonstra empatia.

Em contextos onde a masculinidade é rígida, a recusa em participar de atos violentos pode ser vista como uma fraqueza. “Nesses ambientes, fragilidade é quase sinônimo de exclusão. Para muitos adolescentes, o receio de perder status ou ser ridicularizado pesa mais do que a consciência do erro”, afirma Adriana.

Psychologicamente, o fenômeno conhecido como “efeito manada” também desempenha um papel na intensificação da violência. Em grupo, a responsabilidade individual tende a se dispersar, levando cada participante a sentir que não está sozinho na tomada de decisões.

A pesquisadora de gênero e adolescência da Universidade de Brasília (UnB) e advogada criminalista, Anna Beatriz de Carvalho Leite, destaca que a violação do corpo feminino ainda é vista, em alguns contextos, como uma afirmação de virilidade. “A violência sexual pode ser encarada como uma performance para outros homens. O adolescente está ciente da lei, mas dentro daquele grupo, o ato é justificado, e ele se sente parte disso”, explica.

Anna Beatriz também observa que a educação frequentemente perpetua estereótipos, como a noção de que homens são naturalmente dominantes e impulsivos, enquanto mulheres são vistas como submissas e complacentes. “É necessário repensar gênero e sexualidade além da biologia. A escola não pode ser a única responsável; a família também deve criar espaços de escuta e expressão para meninos e meninas”, adverte.

As especialistas concordam que falhas na educação sexual e emocional agravam a situação. “Quando não há uma educação sexual fundamentada em consentimento, empatia e responsabilidade, o sexo se reduz a desempenho e conquista. A falta de diálogo sobre limites abre caminho para a desumanização”, diz Adriana. Ela ressalta que a pornografia e os discursos online que associam conquista a dominação podem reforçar visões distorcidas quando não há uma mediação crítica. A psicóloga enfatiza que pornografia não é educação sexual, e quando ocupa esse espaço, cria uma visão distorcida sobre a relação entre desejo, consentimento e respeito.

As especialistas defendem que a punição é crucial, mas não suficiente. Se não houver uma mudança na maneira como ensinamos os meninos a compreender poder, sexualidade e pertencimento, continuaremos enfrentando as consequências. Políticas públicas focadas na saúde mental de adolescentes e iniciativas de letramento em gênero e direitos humanos são parte da solução. A pesquisadora Anna Beatriz alerta que pequenas mensagens na infância, como proibir meninos de brincar com bonecas ou expressar emoções, se acumulam e influenciam a construção da masculinidade.

Enquanto os casos como o de Copacabana continuam sob investigação e julgamento, especialistas enfatizam que entender os mecanismos que transformam a violência em uma “prova de lealdade” é um passo essencial para romper com esse ciclo. A cultura que normaliza a agressão não surge no momento do crime; ela se desenvolve ao longo da formação de meninos que aprendem que ser homem significa dominar, nunca ceder e jamais demonstrar vulnerabilidade.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade