*Este artigo é de autoria do urologista Fabricio Borges Carrerette, que atua como pesquisador e professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
O câncer de próstata é o tipo de tumor mais comum entre homens no Brasil, excluindo os cânceres de pele não melanoma. Diante dessa realidade, a busca por métodos cirúrgicos que sejam eficazes, seguros e acessíveis se torna um desafio crítico para os sistemas de saúde, tanto públicos quanto privados.
A prostatectomia radical, que consiste na remoção total da próstata com fins curativos, passou por um avanço significativo nas últimas décadas, impulsionado por inovações tecnológicas e uma melhor compreensão da anatomia. Contudo, a adoção dessas novas técnicas ainda é desigual em diferentes países e instituições.
Na década de 1980, o urologista Patrick Walsh transformou o cenário cirúrgico ao demonstrar que era possível preservar os nervos responsáveis pela ereção, resultando em menor número de complicações e em uma qualidade de vida pós-operatória melhorada.
Nos anos 1990, a laparoscopia trouxe um novo avanço, permitindo incisões menores e uma recuperação mais rápida. Entretanto, sua complexidade técnica e a longa curva de aprendizado dificultaram sua disseminação, sendo dominada apenas por poucos especialistas.
A introdução da cirurgia robótica nos anos 2000 mudou o panorama, com o sistema da Vinci proporcionando maior precisão, visão em 3D e facilitando a realização da prostatectomia laparoscópica. Contudo, o alto custo do equipamento — que inclui aquisição, manutenção e ferramentas descartáveis — limitou sua implementação em países de renda média, como o Brasil.
Apesar disso, pesquisas mostram que os resultados oncológicos e funcionais da cirurgia robótica são comparáveis aos da cirurgia aberta tradicional, com a principal vantagem da robótica sendo a recuperação mais ágil.
Foi neste contexto de desigualdade tecnológica que uma equipe do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe-Uerj) decidiu investigar uma questão crucial.
Seria possível integrar os benefícios da cirurgia robótica — melhor visualização, dissecção precisa e preservação anatômica — à cirurgia aberta sem o uso de tecnologias caras?
A resposta a essa pergunta levou ao desenvolvimento da AORP (Open Anterograde Anatomic Radical Prostatectomy), uma técnica inovadora que adapta os princípios da cirurgia robótica ao ambiente da cirurgia aberta.
A AORP foi criada em 2015, após uma análise abrangente de técnicas abertas, laparoscópicas e robóticas. Três pilares foram identificados como essenciais para resultados funcionais superiores: dissecção anterógrada, preservação do colo vesical e da uretra abdominal, e anastomose contínua conforme a técnica de Van Velthoven.
Com esses fundamentos, a equipe da UERJ desenvolveu um método que reproduz a lógica da cirurgia robótica, utilizando apenas instrumentos convencionais, sem custos adicionais.
O estudo seguiu rigorosamente as melhores práticas científicas, com aprovação do Comitê de Ética do Hospital Universitário Pedro Ernesto e registro no Clinical Trials.
Após um estudo piloto com 10 pacientes, cujos resultados foram bastante promissores, a equipe conduziu um ensaio clínico randomizado com 240 pacientes, entre 2016 e 2019.
Os resultados foram notáveis: os pacientes operados pela técnica AORP apresentaram menor perda de sangue, tempo reduzido de anastomose, diminuição do período de uso de sonda urinária e, principalmente, uma recuperação urinária muito mais rápida.
Em 30 dias, 60,9% dos pacientes submetidos à AORP estavam continentes, em contraste com apenas 42% no grupo que passou pela técnica tradicional. Além disso, foi observada uma menor taxa de complicações e uma maior preservação nervosa, fatores essenciais para a função sexual.
No que diz respeito ao controle oncológico — o objetivo central de qualquer cirurgia para câncer — ambas as técnicas apresentaram resultados equivalentes, demonstrando que a AORP não compromete a segurança em prol da funcionalidade.
Pesquisas anteriores já indicavam que a tecnologia robótica não melhora os índices de cura oncológica em comparação com técnicas abertas. Agora, a AORP reforça que resultados satisfatórios dependem mais da precisão técnica do que de equipamentos de alto custo.
Um estudo de cinco anos de acompanhamento, que está em fase final de publicação, comparando a AORP com a técnica tradicional, revelou controle oncológico idêntico entre as duas, corroborando a segurança do método proposto.
Outro artigo, que avaliou retrospectivamente a AORP em relação à prostatectomia robótica com 252 pacientes (126 em cada grupo), mostrou resultados semelhantes em relação a sangramento, tempo de internação, tempo de uso de sonda vesical e controle do câncer. Este estudo está em processo de submissão para publicação.
Atualmente, a AORP se posiciona como uma alternativa estratégica para países que não têm acesso amplo à cirurgia robótica. Ao utilizar apenas materiais convencionais e dispensar equipamentos onerosos, a técnica pode democratizar o acesso a um padrão cirúrgico avançado.
Nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), onde a robótica é uma exceção, a AORP pode representar um significativo marco transformador.
Com base em comparações recentes entre AORP e cirurgia robótica, os tempos de internação foram semelhantes e a recuperação funcional equivalente, mas com um custo quase quatro vezes menor — considerando a exclusão do custo da plataforma robótica.
Essa economia é especialmente relevante em hospitais públicos, que lidam com orçamentos restritos e uma demanda crescente. Além de sua aplicabilidade prática, a AORP demonstra que a inovação não depende exclusivamente de tecnologia de ponta, mas sim de um domínio anatômico, refinamento técnico e criatividade cirúrgica.
A equipe do Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ provou que é possível transformar um procedimento tradicional sem a necessidade de robôs, tornando-o mais eficiente e acessível.
Em países em desenvolvimento, essa abordagem pode ser fundamental. A técnica também tem o potencial de aprimorar a formação de novos cirurgiões. Ao integrar princípios robóticos à cirurgia aberta, a AORP serve como uma ponte pedagógica para profissionais que, futuramente, poderão migrar para centros equipados com robótica. Assim, não apenas melhora os resultados, mas também amplia as oportunidades de capacitação.
O exemplo da AORP ilustra a capacidade da medicina brasileira de gerar inovações com impacto internacional. A técnica já despertou o interesse de pesquisadores e cirurgiões de outros países que enfrentam desafios semelhantes em relação à robótica.
Se a cirurgia robótica simboliza o futuro da urologia em contextos de alta renda, a AORP pode representar o futuro da urologia em cenários de acesso restrito. E garante que os avanços tecnológicos se traduzam em benefícios reais para a população.
A democratização do cuidado em saúde requer soluções inteligentes, acessíveis e eficazes. A AORP é um exemplo de como a ciência, a criatividade e o compromisso com o paciente podem resultar em inovações transformadoras, mesmo em ambientes com restrições orçamentárias.
Essa técnica brasileira tem o potencial de impactar milhares de vidas e expandir as fronteiras do que entendemos por cirurgia de alta performance.
A publicação deste artigo teve o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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