BRASÍLIA – Após um hiato de quatro anos sem incrementar suas reservas de ouro, o Banco Central do Brasil adquiriu 42,8 toneladas do metal precioso entre setembro e novembro. Esta compra resultou em um crescimento de 33% no volume de ouro nas reservas, passando de 129,6 toneladas para 172,4 toneladas.
O valor total das reservas de ouro alcançou US$ 23,3 bilhões em novembro, um aumento expressivo em comparação aos US$ 11,7 bilhões registrados em janeiro, o que representa uma elevação de 99%. O percentual de ouro nas reservas internacionais do BC também cresceu, subindo de 3,6% para 6,5% durante este período.
Em uma declaração recente, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, destacou que a valorização do ouro neste ano foi um fator que influenciou a compra. No entanto, ele ressaltou que a ação não visa um retorno a curto prazo. “O Banco Central não está adquirindo ouro para lucrar com baixa nos preços, mas sim para fortalecer nossas reservas, permitindo que enfrentemos possíveis desafios futuros”, afirmou.
A administração das reservas internacionais do BC adota uma abordagem anticíclica, sustentada por uma estrutura que se baseia em três pilares: uma carteira de referência, limites operacionais e avaliação de resultados. Essas informações foram divulgadas em um relatório pela instituição em março. O ouro adquirido foi resultado de transações realizadas exclusivamente no exterior.
Desde 2021, quando sob a liderança de Roberto Campos Neto, o Banco Central não havia comprado ouro. Naquele ano, o volume de reservas passou de 67,3 toneladas para 129,6 toneladas, em um contexto de incertezas econômicas devido à pandemia. Desde então, as tensões geopolíticas aumentaram com conflitos na Ucrânia e em Gaza, além da recente reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, que começou com a imposição de tarifas a produtos estrangeiros.
Para Luíza Pinese, economista da XP Investimentos, a aquisição do BC é uma parte de uma estratégia maior de diversificação das reservas internacionais, alinhada a uma tendência global crescente. “O ouro é visto como um ativo de proteção, especialmente em tempos de incerteza geopolítica e flutuações nos mercados financeiros”, explicou. Ela acrescenta que, desde 2022, muitos bancos centrais ao redor do mundo têm intensificado suas compras de ouro para reduzir a dependência do dólar e fortalecer suas reservas.
Pedro Moreira, economista e sócio da ONE Investimentos, compartilha da visão de Pinese, afirmando que a recente compra posiciona o Banco Central brasileiro em sintonia com outras instituições globais que buscam diminuir sua exposição a títulos da dívida americana e aumentar a alocação em ouro. Ele observa um aumento nos riscos relacionados à situação fiscal nos Estados Unidos e aponta que as taxas de crescimento potencial da economia americana não são mais tão robustas quanto antes. “Isso impacta a demanda pela moeda e, consequentemente, pelos títulos do Tesouro americano”, avaliou.
Moreira destaca ainda o crescimento da posição cambial líquida do Brasil, que alcançou US$ 250,2 bilhões até 5 de dezembro, e considera que o BC está adotando uma estratégia eficaz para preservar seu capital e credibilidade. As reservas internacionais totalizaram US$ 360,6 bilhões em novembro, um leve aumento em relação aos US$ 357,1 bilhões de outubro. Desde o início do ano, houve um acréscimo de US$ 32,3 bilhões.
Com base em dados dos primeiros dez meses do ano, Luíza Pinese afirma que o principal fator que impulsionou o crescimento das reservas em 2025 foi a variação cambial, que trouxe cerca de US$ 10 bilhões. As variações de preço e a remuneração das reservas com juros também contribuíram, cada uma somando cerca de US$ 7 bilhões no mesmo período.
“O Brasil atualmente possui um robusto colchão de reservas internacionais para enfrentar choques externos”, conclui a economista, lembrando que essas reservas representam 94% da dívida externa bruta total e 254% da dívida externa de curto prazo. Ela não prevê choques negativos nas reservas, mas alerta para a necessidade de atenção à taxação dos dividendos, que pode afetá-las no final do ano.
Por fim, Luíza Pinese menciona possíveis preocupações, como o aumento do déficit em conta corrente nos últimos dois anos, o cenário fiscal desafiador e a volatilidade relacionada às eleições de 2026. No contexto externo, ela enfatiza a importância de monitorar os riscos fiscais, que têm se tornado um problema em vários países, especialmente nos Estados Unidos, onde o risco institucional também é uma preocupação.