A grave internação de uma mulher de 42 anos em Belo Horizonte, após utilizar uma caneta emagrecedora adquirida no Paraguai, reabriu o debate sobre os perigos da automedicação e o uso de medicamentos comercializados ilegalmente, especialmente aqueles que se assemelham a fármacos para tratamento de obesidade e diabetes.
O endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), alerta para os riscos associados ao conteúdo dessas canetas vendidas sem supervisão. Segundo ele, canetas fabricadas sem a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) podem conter substâncias que diferem das versões aprovadas. Essa situação é preocupante, especialmente com a existência de medicamentos ainda sob proteção de patente, como o Mounjaro, recentemente autorizado no Brasil, que não deveria ter concorrentes fora dos canais regulamentados.
Os perigos são reais. Mancini relembra um incidente ocorrido em 2024, no Rio de Janeiro, onde uma caneta falsificada rotulada como Ozempic continha insulina. A pessoa que aplicou o produto, acreditando ser um medicamento para emagrecimento, sofreu uma hipoglicemia severa e necessitou de internação em uma unidade de terapia intensiva (UTI). “Ao invés de injetar o medicamento correto, a pessoa injetou insulina. É um absurdo total”, declarou o médico.
No caso de Belo Horizonte, há indícios de que a paciente, chamada Kellen Oliveira, possa ter desenvolvido a Síndrome de Guillain-Barré, uma condição neurológica rara e séria de origem autoimune. Essa síndrome ocorre quando o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, resultando em uma variedade de sintomas, como formigamento, dormência e fraqueza muscular. Em casos mais extremos, pode levar à paralisia, afetando membros, músculos faciais e funções vitais como deglutição e respiração.
O endocrinologista é enfático ao afirmar que não existe suporte biológico que relacione medicamentos aprovados para obesidade a reações autoimunes ou inflamatórias severas. Ele observa que a obesidade em si é um estado inflamatório crônico de baixa intensidade, onde o tecido adiposo produz substâncias inflamatórias que elevam os riscos de doenças cardiovasculares, diabetes e trombose. O uso adequado dessas medicações e a perda de peso, ao contrário, podem diminuir a inflamação.
O neurologista André Cleriston, que integra a Academia Brasileira de Neurologia (ABN), enfatiza que não há comprovações que conectem o uso de canetas emagrecedoras à Síndrome de Guillain-Barré. “Nenhum caso foi documentado nas bulas dos medicamentos Ozempic, Wegovy ou Mounjaro”, esclarece. Ele menciona um único relato na literatura médica sobre um paciente de 43 anos nos Estados Unidos, que desenvolveu a síndrome cinco meses após iniciar o uso do Mounjaro e perder cerca de 30 quilos, sem que outros fatores de risco possam ser descartados.
Cleriston também indica que a rápida perda de peso pode complicar a análise da causa. “Essa perda acelerada já é reconhecida como um fator de risco para a Síndrome de Guillain-Barré ou neuropatias similares, frequentemente associadas à deficiência aguda de vitaminas”, aponta. Ele reitera que, até o momento, não há evidências que relacionem agonistas do GLP-1 à síndrome, e estudos sugerem que o uso adequado dessas canetas pode melhorar condições como a polineuropatia diabética. Os raros relatos de neuropatias parecem estar mais ligados à perda rápida de peso e ao controle intenso da diabetes, e não ao medicamento em si.
Quando prescritas corretamente, as canetas apresentam efeitos colaterais conhecidos, geralmente leves. O sintoma mais frequente é a náusea, especialmente no início do tratamento, o que justifica um aumento gradual da dose — normalmente a cada quatro semanas, podendo ser ajustado conforme necessário.
A situação se altera drasticamente em casos de automedicação. Mancini observa que essas medicações foram testadas em indivíduos com obesidade, cujo peso médio gira em torno de 105 a 110 quilos. Quando uma pessoa com 55 quilos, por exemplo, utiliza a mesma dose com a intenção de “perder dois ou três quilos”, o risco de efeitos adversos se intensifica.
Há registros de pacientes que buscaram atendimento hospitalar por vômitos persistentes e incapacidade de se alimentar ou se hidratar, levando à desidratação. Também podem ocorrer diarreia, constipação e, em casos raros, gastroparesia, que é a paralisação do estômago, especialmente em indivíduos predispostos.
O endocrinologista reforça que, para aqueles com indicação médica, os medicamentos aprovados pela Anvisa são destinados ao uso a longo prazo e proporcionam benefícios claros. Em pacientes com risco cardiovascular elevado, há uma diminuição nos casos de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade. “As pessoas têm menos risco de morte, menos infartos e menos AVCs”, afirmou.
Por outro lado, os que se automedicam tendem a utilizar o produto por períodos curtos, com foco em resultados estéticos imediatos, sem supervisão ou critérios adequados. Nesses casos, não existe um risco endocrinológico específico, mas sim uma preocupação elevada com efeitos colaterais graves, que se agravam quando o produto é ilegal ou falsificado.
O incidente da mulher internada após usar uma caneta adquirida no Paraguai revela um problema que vai além da busca por emagrecimento rápido: a falta de controle sobre o que está sendo injetado. Para o especialista, medicamentos dessa natureza devem ser utilizados apenas com prescrição médica, acompanhamento regular e produtos de procedência assegurada.
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