A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 10 de novembro, a operação intitulada Make Up, que visa investigar possíveis irregularidades no uso de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares. A ação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em diferentes estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. O foco da investigação está na apuração de um esquema que teria envolvido agentes públicos e privados na gestão de verbas destinadas a organizações da sociedade civil, com suspeitas de desvios e fraudes relacionadas a contratos e subcontratações ilegais.
Entre os principais alvos da operação estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e duas entidades lideradas por Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os recursos sob investigação incluem aproximadamente R$ 2 milhões enviados por Frias a essas organizações, que também administram o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura. Durante as diligências, o telefone celular do parlamentar foi apreendido, indicando a abrangência das investigações.
As investigações apontam que o grupo suspeito teria direcionado recursos recebidos por meio de termos de fomento para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação adequada da realização dos serviços contratados. Além disso, análises financeiras revelaram movimentações de centenas de milhões de reais entre as empresas envolvidas, com indícios de tentativas de ocultação de valores até julho deste ano. Os crimes apurados incluem peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes em licitações públicas.
A origem da investigação remonta a questionamentos sobre a destinação das emendas parlamentares destinadas às entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”. Em março, o ministro do STF, Flávio Dino, determinou que Mário Frias prestasse esclarecimentos após uma representação feita pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Ela apontou que o parlamentar teria destinado pelo menos R$ 2 milhões à Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina Ferreira da Gama. Essa mesma empresária também lidera o Instituto Conhecer Brasil e a produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção do filme.
A representação foi motivada por uma reportagem publicada em dezembro de 2025 pelo site The Intercept Brasil, na qual foram revelados repasses de aproximadamente R$ 2,6 milhões em emendas de deputados do Partido Liberal (PL) à Academia Nacional de Cultura. Além de Frias, outros parlamentares, como Bia Kicis e Marcos Pollon, também foram citados na matéria. Em resposta, o ministro Flávio Dino instaurou uma apuração preliminar para verificar a legalidade do uso dessas emendas, e posteriormente autorizou a Polícia Federal a acessar dados de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre contratos firmados pela produtora Go Up com a prefeitura de São Paulo.
Mário Frias, que também atua como produtor executivo de “Dark Horse”, negou ao STF qualquer irregularidade na destinação dos R$ 2 milhões, afirmando que esses recursos não foram utilizados para financiar a cinebiografia de Bolsonaro. Em manifestação apresentada em maio, o parlamentar classificou as suspeitas de desvio como infundadas e sem respaldo probatório, alegando que as emendas tiveram como destino projetos de inclusão digital, empreendedorismo e esportes. Frias reforçou ainda que não há provas de que o dinheiro tenha sido direcionado à produção cinematográfica e que um parecer da Câmara dos Deputados não apontou irregularidades nas emendas questionadas.
A investigação envolvendo recursos privados também está em andamento. Na quarta-feira, 9 de novembro, o ministro André Mendonça, do STF, homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, relacionada a uma apuração sobre repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro à produção do filme. O caso também envolve o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), que teria solicitado recursos a Vorcaro para financiar a obra sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Durante entrevista ao Jornal Nacional em agosto, Flávio negou irregularidades e afirmou que buscou financiamento privado, não público, para o projeto.
A operação desta quinta-feira reforça o foco das autoridades na fiscalização do uso de recursos públicos e na investigação de possíveis esquemas de corrupção envolvendo emendas parlamentares e contratos com entidades ligadas à produção cinematográfica sobre figuras políticas.