Em seu pronunciamento na véspera de Natal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descreveu o aumento das tarifas de importação dos Estados Unidos como “um desafio sem precedentes” para o Brasil. O impacto dessas tarifas foi sentido não apenas pelo Brasil, mas por todos os países que mantêm relações comerciais com os EUA, afetados pelas medidas adotadas pelo presidente Donald Trump.
Desde sua campanha, Trump manifestou sua afeição pelo termo “tarifas”, prometendo implementar essa estratégia para reerguer a economia americana, que segundo ele, se tornara excessivamente dependente de importações. Em 2024, o déficit comercial dos EUA chegou a US$ 918,4 bilhões, um aumento de 17% em relação a 2023, conforme dados do BEA (Departamento de Análise Econômica) e do Departamento do Censo dos EUA.
Após retornar ao cargo, Trump pediu estudos para examinar o que considerava desequilíbrios comerciais e relações injustas com parceiros, incluindo o Brasil, que inicialmente foi alvo por causa das barreiras comerciais impostas ao etanol. Em 2 de abril, Trump proclamou o “Dia da Libertação”, quando as tarifas recíprocas foram aplicadas, com uma alíquota de 10% para produtos brasileiros.
Em julho, Trump intensificou suas críticas ao Brasil, alegando que o país estava agindo de forma prejudicial aos interesses dos EUA. Ele anunciou um aumento na tarifa sobre produtos brasileiros para 50% a partir de agosto. A partir desse ponto, o comércio entre as duas nações diminuiu, e um clima de tensão política se instalou, com a falta de canais de comunicação adequados.
As exportações brasileiras para os EUA, que haviam se recuperado após a pandemia, atingindo picos de US$ 4 bilhões em junho de 2022, começaram a cair, registrando US$ 2,2 bilhões em outubro de 2024. Em novembro, houve uma leve recuperação, alcançando US$ 2,6 bilhões.
Dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) mostraram que as importações de café brasileiro pelos EUA caíram mais de 50% entre agosto e novembro de 2024, embora o país continuasse sendo o principal destino do café brasileiro. As exportações de produtos de madeira também sofreram uma queda de 55% durante o período das tarifas, de acordo com a Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente).
Os principais produtos brasileiros exportados para os EUA incluem café, carne, frutas e madeira, com setores menores como pescados e calçados também dedicando a maior parte de sua produção ao mercado americano. A elevação da tarifa para 50% em agosto trouxe uma politização ao debate, com Trump utilizando o tema em seus discursos e apontando o STF como um problema.
O governo Lula, por sua vez, buscou fortalecer o discurso de soberania nacional e defendeu as instituições do país, ganhando popularidade ao se opor às tarifas. Entretanto, as negociações para abordar o tarifaço tentaram evitar uma abordagem ideológica, com o vice-presidente Geraldo Alckmin liderando as discussões com o setor privado.
Apesar de dificuldades na comunicação entre os governos, Lula e Trump se encontraram na ONU em setembro, onde iniciaram uma conversa que se transformou em um diálogo produtivo. Em 14 de novembro, Trump reduziu as tarifas sobre produtos agrícolas brasileiros, e em 20 de novembro, uma ordem executiva eliminou uma tarifa extra de 40% sobre outros produtos, beneficiando mais de 200 itens, incluindo carne e café.
O economista Roberto Uebel destacou a importância do diálogo entre os governos e a articulação com o setor privado para a superação do tarifaço, que expôs fragilidades no mercado brasileiro. A instabilidade enfrentada pelos investidores e a pressão sobre o câmbio foram evidentes, gerando reflexos em setores específicos, como o de calçados no Sul do Brasil.
Um estudo da Amcham Brasil revelou que 21 setores enfrentaram retração nas vendas para os EUA entre agosto e novembro de 2024, e apenas seis conseguiram compensar as perdas. As lições do tarifaço indicam a necessidade de uma abertura comercial mais robusta e uma busca por novos mercados, como Índia e Indonésia, para diversificar as parcerias comerciais.
Lula reconheceu que 2024 foi “um ano difícil”, mas concluiu que o povo brasileiro saiu vitorioso. Contudo, o tarifaço ainda continua a afetar diversos setores que dependem fortemente do mercado americano, que lutam para se adaptar a essa nova realidade.