Durante o mês dedicado às gestantes, celebrado em agosto, a atenção ao comportamento do colesterol na gravidez reforça a necessidade de acompanhamento clínico adequado. Embora muitas mulheres fiquem preocupadas ao receberem resultados laboratoriais indicando níveis elevados de lipídios, esses aumentos geralmente representam adaptações fisiológicas normais ao longo do período gestacional. No entanto, o acompanhamento pré-natal é essencial para distinguir as alterações fisiológicas das que podem representar riscos à saúde da mãe e do bebê, possibilitando intervenções precisas quando necessárias.
Durante a gravidez, o organismo materno sofre modificações metabólicas significativas. A elevação do colesterol e dos triglicerídeos é uma resposta natural às demandas do crescimento fetal, à formação da placenta e à produção hormonal. Em grande parte dos casos, essas alterações não requerem tratamento medicamentoso, sendo consideradas parte do processo fisiológico. Ainda assim, o acompanhamento médico especializado é fundamental para avaliar cada situação individualmente, considerando fatores de risco e o histórico clínico da gestante.
De acordo com a endocrinologista Lizanka Marinheiro, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), é importante tranquilizar as gestantes quanto a esse aspecto. Ela explica que o aumento do colesterol na gravidez, na maioria das vezes, é uma adaptação fisiológica que não justifica pânico ou a suspensão de medicamentos por conta própria. Ressalta ainda que um pré-natal de qualidade deve ser capaz de identificar as mulheres que realmente necessitam de investigação mais aprofundada, levando em conta o contexto clínico completo, incluindo fatores de risco e outros marcadores metabólicos.
Lizanka destaca que o resultado de um exame laboratorial isolado não deve ser o único parâmetro para determinar a necessidade de intervenções. A avaliação deve envolver o histórico da paciente, presença de dislipidemia prévia, hipercolesterolemia familiar ou doenças cardiovasculares, além de elevações relevantes nos triglicerídeos. Essas informações auxiliam na identificação de situações que demandam maior atenção e acompanhamento especializado.
Além do monitoramento laboratorial, o acompanhamento pré-natal deve incluir orientações que promovam uma gestação saudável, especialmente no aspecto nutricional. A nutricionista Julyane Sobrino, do mesmo instituto, reforça a importância de uma alimentação balanceada, com foco em alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas e gorduras insaturadas, como azeite de oliva, abacate, oleaginosas e sementes. A inclusão de peixes ricos em ômega-3, como sardinha e salmão, duas a três vezes por semana, também é recomendada. Em certos casos, a suplementação de ômega-3 pode ser indicada, sempre sob avaliação individualizada.
A especialista alerta para hábitos que podem elevar os níveis de colesterol e triglicerídeos, aumentando o risco cardiovascular e obstétrico, especialmente em gestantes com obesidade, hipertensão, diabetes gestacional ou histórico de dislipidemia. Entre esses hábitos estão o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas, bebidas açucaradas, carboidratos refinados, sedentarismo e ganho excessivo de peso durante a gestação. No entanto, ela enfatiza que a gestação não é momento para dietas restritivas, pois nutrientes como gorduras e colesterol são essenciais para o desenvolvimento fetal, incluindo a formação hormonal, placentária e cerebral.
A abordagem nutricional deve ser individualizada, priorizando a qualidade da alimentação e pequenas mudanças sustentáveis, como substituir frituras por preparações assadas, alimentos refinados por integrais, além de incluir oleaginosas e peixes ricos em ômega-3. Segundo Julyane, estratégias mais eficazes e seguras envolvem mudanças de hábitos que possam ser mantidas ao longo do tempo, ao contrário de restrições alimentares severas.
A médica Simone de Almeida Leite, do IFF/Fiocruz, reforça que, embora a elevação de lipídios seja considerada fisiológica na gestação, gestantes com fatores de risco ou dislipidemia prévia devem receber atenção mais próxima. Ela destaca que o pré-natal é uma oportunidade para identificar precocemente fatores de risco, orientar mudanças no estilo de vida e planejar o acompanhamento pós-parto. A equipe de saúde deve estar atenta a sinais de hipertensão, dislipidemia e diabetes gestacional, além de promover orientações sobre hábitos saudáveis, atividade física e evitar o uso de álcool e cigarro.
Em suma, o aumento do colesterol durante a gravidez, na maior parte dos casos, é uma resposta natural do organismo. O diferencial está na realização de um pré-natal de qualidade, que permita identificar situações que requerem maior atenção. Com acompanhamento médico, nutricional e multiprofissional, a gestante pode adotar hábitos saudáveis, diminuir riscos de complicações e contribuir para a saúde cardiovascular, tanto durante a gestação quanto ao longo da vida.