Os benefícios econômicos anunciados pelo governo em meio ao período de disputa pela reeleição totalizam aproximadamente R$ 298,4 bilhões para o ano de 2026. A análise do colunista Gilvan Bueno aponta que, embora tais medidas tenham sido antecipadas, a sua magnitude surpreendeu o mercado e podem gerar impactos significativos na economia brasileira nos próximos anos, especialmente na trajetória da taxa básica de juros do país.
Em entrevista à CNN Money, Bueno destacou que o valor do pacote, que inclui renúncias fiscais, subvenções e aumento do volume de recursos em circulação na economia, representa um estímulo ao consumo das famílias. Contudo, ele alertou que esse efeito tende a ser de curta duração, estimando que possa durar entre seis a oito meses. Durante esse período, a demanda adicional provocada pelas medidas deve exercer pressão sobre a inflação, dificultando a possibilidade de o Banco Central reduzir a taxa de juros. Segundo ele, essa demanda elevada pode gerar uma pressão nos juros futuros, dificultando a queda das taxas de juros ao longo do tempo.
De acordo com projeções do Boletim Focus, a expectativa para a taxa Selic ao final de 2027 já era de aproximadamente 12%. Com o impacto do aumento de demanda causado pelo pacote de benefícios, essa trajetória pode ser ainda mais pressionada, dificultando a redução dos juros para níveis abaixo de 10% ao ano antes de 2029 ou 2030, caso o ciclo de queda seja gradual e racional, conforme avalia Bueno.
O especialista também chamou atenção para o elevado endividamento das famílias brasileiras, que atinge cerca de 80% da população. Ele afirmou que, embora o consumo seja historicamente um motor do crescimento econômico no Brasil, o nível de endividamento compromete a sustentabilidade do crescimento baseado nesse padrão. Segundo Bueno, a situação atual remete ao chamado “voo da galinha” dos anos 1980, quando o crescimento se dava de forma insustentável.
Outro ponto destacado foi a concentração de renda, que, segundo ele, é um fator estrutural que influencia o cenário econômico. Dados indicam que, a cada R$ 1,00 que entra na economia brasileira, aproximadamente R$ 0,24 permanecem nas mãos do 1% mais rico. Para Bueno, apenas medidas de longo prazo, com horizonte de 10 a 20 anos, podem promover uma redistribuição de renda mais efetiva e sustentável.
No aspecto fiscal, o colunista alertou para o aumento da dívida pública, que acelerou nos últimos quatro anos. A inclusão de R$ 300 bilhões adicionais no orçamento, prevista pelo pacote de benefícios, representa um desafio relevante à credibilidade do país perante investidores internacionais. Ele questionou como o Brasil explicará essa ampliação na política fiscal, considerando que investidores estrangeiros avaliam variáveis como a relação dívida/PIB e a organização orçamentária. Uma deterioração nesses indicadores pode elevar o CDS brasileiro, pressionar os títulos públicos e encarecer o custo de financiamento da dívida. Além disso, o aumento das taxas dos títulos do Tesouro americano, que atualmente estão acima de 5%, torna ainda mais desafiador para o Brasil competir por investimentos em um cenário de maior risco.
Questionado sobre a possibilidade de um futuro governo reverter as medidas de benefício, Bueno foi enfático ao afirmar que a tendência é de adaptação, não de desconstrução das ações já implementadas. Segundo ele, a implementação de reformas e ajustes na economia será inevitável, e os primeiros seis meses após a troca de gestão em 2027 serão decisivos para definir a estratégia de acomodação dos novos gastos e o rumo da política fiscal brasileira.