Na última semana, Jensen Huang, CEO da Nvidia, anunciou no X que a inteligência artificial geral (AGI) já teria sido alcançada, gerando uma forte repercussão na internet. Sua declaração ocorreu poucos dias após o lançamento de dois novos modelos de inteligência artificial por parte da OpenAI, com o Astra, e da Anthropic, com o Fable 5.1. Apesar do entusiasmo, especialistas e observadores do setor destacam a necessidade de uma análise mais cuidadosa acerca do real progresso rumo à AGI, especialmente considerando as definições e critérios utilizados para sua caracterização.
A definição mais aceita de AGI é a de uma máquina capaz de realizar atividades relevantes para os seres humanos de forma autônoma, gerando valor econômico. Segundo esse entendimento, a simples execução de tarefas complexas ou avançadas não garante a chegada da AGI, mas sim a sua capacidade de atuar de modo autônomo e rentável. Nesse contexto, os recentes avanços, como o Astra, que consegue operar por horas em um computador e, segundo rumores, teria resolvido problemas matemáticos considerados desafiadores, como as equações de Navier-Stokes, representam um avanço técnico significativo, embora ainda não confirmem a chegada da AGI.
Outro aspecto importante a ser considerado é a dimensão geográfica do progresso na área. A atividade econômica relevante relacionada à inteligência artificial está sujeita a legislações trabalhistas, regulamentações profissionais e regras específicas de cada país. Essas regulamentações influenciam a capacidade de implementação de tecnologias avançadas, limitando ou ampliando o uso de AGIs dependendo do grau de regulação local. Assim, enquanto em regiões com menor regulação o desenvolvimento e a implementação de AGIs podem avançar mais rapidamente, em países com regras mais rígidas, a presença de múltiplas AGIs será mais limitada inicialmente. Essa disparidade sugere que, ao contrário da ideia de uma AGI universal, o que se verá serão várias AGIs distintas, cada uma adaptada às condições locais.
As diferenças também se manifestam na velocidade de adoção e desenvolvimento de diferentes modalidades de inteligência artificial. No setor de software, o progresso foi acelerado pelo amplo acesso à internet, que serviu como uma espécie de sala de aula global. Já na área de veículos autônomos, o avanço é mais lento e mais complexo. Atualmente, empresas como Waymo operam veículos com autonomia de nível IV, que funcionam em cidades pré-mapeadas e sob supervisão remota, enquanto a autonomia de nível V, que permitiria veículos totalmente autônomos em qualquer ambiente sem operadores remotos, ainda está a anos de distância. A situação é semelhante no campo da robótica, onde a conversão de experiências físicas em dados de treinamento ainda enfrenta obstáculos técnicos significativos, evidenciados por recentes competições de robótica que registraram recordes, mas também muitas dificuldades operacionais.
Apesar desses desafios, Jensen Huang afirmou que a chegada da AGI é uma realidade, o que levanta questionamentos sobre a interpretação de seu anúncio. A explicação para esse otimismo está na atuação da Nvidia, que atualmente funciona como um verdadeiro banco central da inteligência artificial. A empresa garantiu, em agosto, até US$ 105 bilhões em aluguel e energia para o data center que a OpenAI utilizará em Ohio, onde será a fornecedora exclusiva de chips. Além disso, em parceria com BlackRock e outros bancos, a Nvidia criou plataformas para levantar mais de 500 bilhões de dólares destinados a infraestrutura de IA.
Essa atuação de Nvidia, que emite créditos, fornece garantias e regula o acesso a recursos essenciais para o desenvolvimento de IA, assemelha-se às funções de um banco central, mas com uma diferença fundamental: ela precisa que a moeda de troca, ou seja, as máquinas e seus resultados, tenham lastro. Quando Huang afirma que a AGI chegou, está, na prática, dizendo que esse lastro existe, pois as máquinas já realizam trabalhos que, antes, eram exclusivos dos humanos. Assim, a chegada da AGI, segundo essa perspectiva, não é mais uma questão de possibilidade, mas de fato consumada — embora, na prática, ainda não se possa afirmar que a inteligência artificial geral esteja plenamente operacional ou acessível a todas as regiões do mundo. Portanto, é preciso cautela para não transformar essa narrativa em uma ficção hollywoodiana, que distorce a complexidade e os limites atuais da tecnologia.