A morte de Mikhail Gorbachev, ocorrida há quatro anos, permanece como um marco na história mundial, especialmente em um contexto russo atual marcado por dificuldades militares na guerra da Ucrânia, desaceleração econômica e alta inflação. Em um país onde, atualmente, o nome do líder soviético é frequentemente associado a uma liderança fraca, a memória de suas ações e seu impacto global parecem estar sendo gradualmente esquecidos. Enquanto isso, em Moscou, exemplares de calendários de 2027, ilustrados com fotos e frases de Vladimir Putin, são vendidos com o propósito de promover o orgulho nacional, refletindo o clima de valorização do patriotismo oficial.
Mikhail Gorbachev, líder da União Soviética de 1985 até sua dissolução oficial em 1991, ocupou diversos cargos na burocracia do Partido Comunista, chegando a Secretário-Geral em 1985, posteriormente chefe de Estado a partir de 1988 e Presidente do país em março de 1990, posição que deixou em dezembro de 1991, quando a URSS foi oficialmente extinta. Sua formação marxista-leninista foi marcada por uma convicção de que a sobrevivência do Estado soviético dependia de reformas profundas, centradas em dois conceitos-chave: a “glasnost”, ou abertura política, e a “perestroika”, ou reestruturação econômica. Esses conceitos, popularizados em 1986, sinalizaram uma nova fase nas relações entre o Ocidente e o Oriente, trazendo esperança de mudanças internas e maior diálogo internacional.
Gorbachev recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1990, reconhecimento por seu papel na redução de tensões globais e na promoção do desarmamento nuclear, que culminou na assinatura do Tratado START I em 1991 com os Estados Unidos. Este acordo estabeleceu uma significativa diminuição dos arsenais nucleares de longo alcance de ambos os países, sendo renovado em 2010 sob um regime de inspeções mútuas e troca de informações. No entanto, o tratado expirou em 2026 e não foi renovado, em grande parte devido às tensões decorrentes da guerra na Ucrânia e ao apoio limitado dos Estados Unidos a Kiev.
Durante seu mandato, Gorbachev buscou estabelecer canais de comunicação com líderes ocidentais de peso, como Ronald Reagan, François Mitterrand e Margaret Thatcher, o que contribuiu para a desanuviamento das relações internacionais na época. Contudo, sua trajetória também foi marcada por um golpe militar fracassado, que resultou na sua saída do poder e na ascensão de Boris Ieltsin, que permaneceu no comando até dezembro de 1999. Ieltsin promoveu a transição econômica da Rússia de um sistema socialista para uma economia de mercado, por meio de privatizações e liberalizações econômicas, embora de forma desorganizada. Essas mudanças favoreceram uma elite de empresários, posteriormente conhecida como “oligarcas russos”, que hoje apoiam incondicionalmente Vladimir Putin.
Gorbachev, ao longo dos anos, manifestou preocupações constantes com o aumento das tensões militares globais. Em uma entrevista concedida à BBC em 2019, ele recordou sua época como Secretário-Geral do Partido Comunista, destacando sua tentativa de ampliar o conhecimento sobre a realidade do povo soviético. Segundo ele, sua principal preocupação na época era evitar a guerra, especialmente considerando o trauma coletivo da Segunda Guerra Mundial, na qual estima-se que entre 20 e 27 milhões de soviéticos, entre militares e civis, tenham morrido — aproximadamente 13% da população da União Soviética na época. Em comparação, a pandemia de Covid-19 matou cerca de 7 milhões de pessoas mundialmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.
Atualmente, o SIPRI (Instituto de Pesquisas de Paz de Estocolmo) estima que existam aproximadamente 12,2 mil ogivas nucleares no mundo, sendo que cerca de dois terços desse arsenal estão sob controle de Rússia e Estados Unidos. Desde o fim do Tratado START I, esses dois países não possuem atualmente um acordo formal de controle de seus arsenais nucleares, o que aumenta a preocupação internacional diante do risco de uma escalada militar de proporções catastróficas. A figura de Gorbachev permanece como símbolo de uma era de esperança de diálogo e redução de tensões, contrastando com o momento atual de instabilidade e de questionamentos sobre o legado de suas reformas e do fim da Guerra Fria.