O presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, assumiu o comando da autoridade monetária dos Estados Unidos em maio, em um momento de intensa discussão interna sobre a necessidade de elevar as taxas de juros para conter a inflação. Na ocasião, havia uma divisão clara entre as autoridades do banco central, com alguns defendendo aumentos na política de juros e outros, incluindo o então presidente Donald Trump, pressionando por taxas mais baixas para estimular o crescimento econômico.
Recentemente, no entanto, novos dados econômicos sugerem que o Fed pode optar por uma postura de manutenção das taxas de juros por um período prolongado. Apesar do mercado de trabalho não estar em plena ascensão, com salários reais em queda nos últimos seis meses e crescimento do emprego moderado, a taxa de desemprego permanece em 4,1%, um patamar considerado historicamente baixo.
A inflação, que havia disparado nos primeiros meses de 2026 em decorrência de conflitos internacionais envolvendo os EUA, Israel e o Irã, ainda se mantém acima da meta de 2% estabelecida pelo Fed. Contudo, os últimos dois meses apresentaram sinais de desaceleração, o que enfraquece argumentos de que a inflação só diminuirá com o aumento das taxas de juros. Como a economia não demonstra sinais claros de uma tendência de alta na inflação ou de um aumento no desemprego, os formuladores de política monetária tendem a manter uma postura de espera.
O presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, declarou na quinta-feira que o nível atual das taxas de juros ainda é restritivo o suficiente para ajudar a reduzir a inflação. Ele destacou que grande parte do aumento recente nos preços foi provocada por fatores pontuais, como tarifas comerciais elevadas, preços altos do petróleo e um boom de investimentos em inteligência artificial, que devem se dissipar com o tempo.
Por outro lado, há o entendimento de que permitir que a inflação permaneça acima do alvo por um período prolongado pode gerar expectativas de alta de preços por parte de consumidores e empresas, o que pode se transformar em uma profecia autorrealizável, dificultando o controle da inflação futura. Ainda assim, Barkin afirmou que a desaceleração das pressões inflacionárias nos mercados financeiros e na percepção do público pode reduzir a necessidade de aumento de juros, mesmo com a inflação ainda acima do esperado por mais de cinco anos. Segundo ele, a narrativa de que “a inflação está caindo” ajuda a manter as expectativas sob controle.
Essa percepção se refletiu nas apostas do mercado, que passaram a descartar a possibilidade de um aumento na taxa de juros na reunião do Fed agendada para 15 e 16 de setembro, após a divulgação de dados de emprego e inflação mais fracos do que o previsto em julho. Ainda assim, as probabilidades indicam uma chance superior a 90% de que o Fed eleve sua taxa de referência até o final do ano, conforme análise da ferramenta FedWatch do CME Group. As próximas projeções do banco central, que serão divulgadas após a reunião do próximo mês, poderão apontar uma mudança na postura de política monetária.
Em relação às perspectivas de inflação, o índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE), utilizado pelo Fed para definir suas metas, deve fechar 2027 entre 2,2% e 2,5%, segundo projeções feitas em junho. Após atingir 4,1% em maio, impulsionado por aumentos nos preços de energia, o PCE recuou para 3,7% em junho, o dado mais recente disponível. Para atingir a meta de 2% até o final de 2027, uma parcela dos analistas estima que o Fed precisaria elevar as taxas de juros em 0,25 ponto percentual até o fim deste ano, enquanto outros defendem que não há necessidade de mudanças neste momento.
Recentemente, membros do conselho do Fed, como Christopher Waller e Lisa Cook, manifestaram apoio a aumentos nas taxas de juros, caso a inflação não apresente sinais de esfriamento em breve. Dados recentes indicam que os preços ao produtor permaneceram inalterados em julho, após uma ligeira alta nos preços ao consumidor em relação ao mês anterior, o que reforça a possibilidade de uma estabilização nos preços.
Apesar desses sinais favoráveis, há uma preocupação de que anos de inflação acima do limite estabelecido possam elevar as expectativas inflacionárias, dificultando o controle futuro dos preços. A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, argumenta que o ritmo de redução da inflação deve ser acelerado, mesmo que isso implique manter as taxas de juros elevadas por mais tempo. Ela ressaltou a necessidade de agir com urgência para recuperar a credibilidade na meta de 2%.
Enquanto isso, Donald Trump continua defendendo cortes nas taxas de juros, responsabilizando seus opositores por supostos bloqueios às reduções. Warsh, por sua vez, evitou fazer declarações públicas sobre seus planos, permanecendo em silêncio.
A preocupação central entre os economistas é que, quanto mais tempo o Fed permitir que a inflação permaneça acima do limite desejado, maior será o risco de perder a confiança do público na sua capacidade de controlar os preços. Isso pode gerar um ciclo de expectativas inflacionárias elevadas, tornando mais difícil e custoso o combate à inflação no futuro. Especialistas alertam que, para evitar esse cenário, o banco central deve equilibrar cuidadosamente a manutenção das taxas de juros e o ritmo de desaceleração da inflação, levando em conta os riscos de desaceleração econômica e aumento do desemprego.