Ao longo de 2024, mais de 4,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos foram coletadas diretamente por catadores autônomos. Esse grupo, que representa aproximadamente 700 mil trabalhadores “invisíveis”, foi responsável pela coleta de cerca de 6% do total de lixo urbano gerado no Brasil, conforme o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, elaborado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
O relatório também destaca que esses catadores se dedicam exclusivamente à coleta de materiais destinados à reciclagem, o que implica que 100% do que recolhem das ruas é recuperado. Esse número é quase equivalente ao total de resíduos coletados pelos serviços públicos formais, que totalizaram 4,8 milhões de toneladas destinadas a centrais de triagem.
Em um esforço para aprimorar os serviços, o Banco do Nordeste (BNB) anunciou, em dezembro deste ano, a abertura de um edital com a disponibilidade de R$ 30 milhões para financiar projetos de gestão integrada de resíduos sólidos.
A iniciativa visa apoiar a coleta seletiva, promover a inclusão socioeconômica dos catadores, fomentar a educação ambiental e incentivar soluções tecnológicas, com cada projeto podendo receber entre R$ 1 milhão e R$ 2,5 milhões.
“O trabalho das associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis envolve milhares de pessoas e desempenha um papel crucial na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). No entanto, esses trabalhadores ainda enfrentam desafios como a falta de infraestrutura, baixa escolaridade, dificuldade de acesso a mercados e a necessidade de equipamentos de proteção”, observa Aldemir Freire, diretor de planejamento do BNB.
“Com isso, fortalecer a estruturação, capacitação e articulação institucional, além de valorizar o trabalho dos catadores, pode gerar impactos positivos tanto ambientais quanto sociais. Por essa razão, o banco decidiu investir recursos não reembolsáveis para apoiar essa população, complementando outras iniciativas voltadas para o desenvolvimento da economia circular na nossa área de atuação”, acrescenta Freire.
O edital tem como foco alcançar projetos em toda a área de atuação do banco, que abrange não apenas os nove estados do Nordeste, mas também municípios do norte do Espírito Santo e do norte de Minas Gerais.
Os critérios de seleção visam dinamizar os projetos, incluindo uma bonificação por desempenho. “O edital oferece uma pontuação adicional para propostas que sejam implementadas em municípios onde o Programa de Desenvolvimento Territorial do Banco do Nordeste atua, priorizando ações que integrem a economia circular na estruturação de suas cadeias produtivas”, explica Freire.
Além disso, propostas que forem apresentadas em municípios com um Plano de Resíduos Sólidos vigente, que sirva como guia para ações locais, também terão maior valorização, completa Freire.
Essa abordagem está alinhada com as pesquisas da engenheira ambiental Ana Maria Rodrigues Costa de Castro, que, em sua tese de doutorado na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, defendeu a importância da integração dos catadores na economia circular. Ela sugere que um maior investimento na inclusão desses trabalhadores é essencial, propondo, entre outras medidas, a implementação de um Programa de Pagamento por Serviços Ambientais para reconhecer o serviço que eles prestam.