“Steve”, o mais recente lançamento da Netflix, utiliza a narrativa cinematográfica para destacar a resiliência no setor educacional e a vida de jovens em situação de vulnerabilidade. Sob a direção de Tim Mielants, o filme foi bem recebido no Festival de Toronto e oferece uma análise dos desafios enfrentados pelo sistema de ensino alternativo britânico na década de 1990. O papel principal, que atraiu a atenção do público, é interpretado por Cillian Murphy, premiado com o Oscar de melhor ator em 2024 por “Oppenheimer”.
Ambientado em uma instituição britânica destinada a jovens problemáticos nos anos 90, “Steve” narra a história do diretor que dá nome ao filme e de seus alunos, explorando um único dia em suas vidas enquanto lutam para encontrar seu lugar no mundo. Ao longo da trama, fica claro que eles não podem enfrentar essa jornada sozinhos. A verdadeira — e única — maneira de avançar é através da comunidade e do cuidado mútuo. Assim, a essência do filme se manifesta em um diálogo crucial: “Você não está sozinho, Shy”, afirma Steve (Murphy) ao seu aluno. “Essa é a questão principal.”
Inspirado no livro “Shy”, o projeto nasceu, segundo Cillian Murphy durante uma coletiva de imprensa à qual a Splash esteve presente, de uma amizade e colaboração criativa com Max Porter, autor do livro e roteirista da adaptação. “Max e eu temos uma boa amizade. Ele teve a ideia de transformar o livro em um filme, mas, mais do que isso, desejava capturar o universo da obra”, detalhou o ator, explicando a intersecção das experiências de Shy (Jay Lycurgo) e de Steve (Cillian Murphy), um personagem secundário na história original. “Eles orbitam um ao redor do outro, tentando se conectar, mas sem sucesso, ao longo de um período de 24 horas”.
Para Murphy, que vem de uma família de educadores, o papel proporcionou uma nova perspectiva sobre a realidade do ensino. “Senti um grande peso de responsabilidade em relação àquela comunidade que se dedica a essa tarefa diariamente. Eles são mal remunerados, desvalorizados, mas persistem, fazendo o seu melhor”, compartilhou Cillian Murphy.
O ator enfatizou seu compromisso com uma atuação autêntica. “Quis retratar o personagem de forma verdadeira e honesta. Não para glorificá-lo ou demonizá-lo, mas para mostrar que essas pessoas — professores, cuidadores, assistentes sociais — também enfrentam suas lutas. Tudo é feito com amor e vem de um lugar de vocação, não apenas de um trabalho.”
“Foi somente ao iniciar este projeto que realmente comecei a refletir sobre a dedicação dos meus pais. Eles passavam o dia lidando com adolescentes, enfrentando todas aquelas emoções e energias em sala de aula, e depois voltavam para casa para cuidar de nós quatro. Meu respeito por eles cresceu enormemente com essa experiência”, declarou o ator.
Murphy também mencionou um professor que teve um impacto significativo em sua formação. “Tive um professor de inglês aos 15 anos que realmente abriu as portas do teatro e da poesia para mim. Ele fez com que Shakespeare se tornasse real e significativo. Esse tipo de educador transforma vidas.”
Sobre sua colaboração com Tim Mielants, com quem já havia trabalhado anteriormente em “Pequenas Coisas Como Estas”, Murphy foi efusivo. “Adoro trabalhar com ele. Sinto-me seguro e cuidado. Ele coloca a atuação no centro da película, e isso é mágico. Ter alguém tão criativo e talentoso visualmente é um verdadeiro presente.”
Camada pessoal
A transposição do best-seller “Shy” para o cinema trouxe uma dimensão profundamente pessoal. O diretor Tim Mielants revelou que a estrutura não convencional do livro — que se desenrola em um curto espaço de 24 horas — o desafiou inicialmente: “Disse a Cillian e Alan [Moloney, produtor], ‘Preciso digerir isso porque não sei como abordar'”. Ao revisitar gravações caseiras da década de 1990, em uma tentativa de se reconectar com seu pai, que desenvolveu Alzheimer, e com a memória de um irmão falecido, Mielants encontrou o verdadeiro coração do filme. “Havia uma gravidade emocional que poderia ser a essência do filme”, comentou.
Intensivo de atuação
O processo de trabalho com os jovens atores, muitos dos quais eram estreantes, foi bastante rigoroso: cerca de 3.500 foram avaliados. Ao selecionar o elenco, Mielants propôs um “intensivo” de duas semanas, utilizando exercícios do método Stanislavski, onde o primeiro dia foi dedicado a conversas profundas sobre as conexões pessoais de cada jovem. “O que realmente levou a grandes atuações foi pedir que falassem sobre suas próprias vidas, trazendo fotos significativas como ponto de partida”.
“O mais belo desse projeto é que eles não apenas atuaram, mas se tornaram os personagens”, afirmou Mielants.
“Steve” é, nas palavras de seu diretor, uma “carta de amor aos anos 90” e aos filmes daquela época. Contudo, como ficou evidente durante a coletiva, é, acima de tudo, uma homenagem aos educadores, aos jovens em conflito e à complexidade da conexão humana. É um projeto que, como resumiu Cillian Murphy, ressoa com todos. “As histórias entre professores e alunos são universais, pois, se tivermos sorte, todos nós já vivemos experiências desse tipo”, concluiu.