As exportações brasileiras para a União Europeia apresentaram um aumento de 30,7% entre maio e setembro de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior, conforme anúncio feito pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Os números indicam um início promissor para o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026, após quase 27 anos de negociações. No acumulado de janeiro a setembro de 2026, as vendas do Brasil ao bloco totalizaram US$ 44,17 bilhões, representando uma alta de 20% em relação ao mesmo período de 2025. Em setembro, os embarques atingiram US$ 6,95 bilhões, um avanço de 60,1% sobre setembro de 2025, sinalizando um crescimento expressivo.
Entretanto, especialistas e órgãos do setor econômico alertam para a necessidade de uma análise mais aprofundada. Embora os números sejam positivos, eles dependem de fatores como variações de preços internacionais, câmbio e safra, além de tarifas, dificultando atribuir toda a alta ao impacto do tratado. Segundo a Carta IEDI nº 1354, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o índice de preços das commodities não energéticas subiu 9,4% em 2025, impulsionado por produtos como soja e café, o que pode ter contribuído significativamente para o crescimento das exportações.
Antes do acordo, a participação da União Europeia nas exportações brasileiras era de 14,3%, ou US$ 49,8 bilhões em 2025, tornando-se o segundo maior destino após a China. Os principais itens vendidos ao bloco eram petróleo bruto, café não torrado, farelo de soja, minério de cobre e soja. Dados da mesma fonte indicam que, de 2011 a 2025, as exportações para a UE cresceram apenas 6,4% em valor, enquanto a participação do bloco no total exportado caiu de 18% para 14%. A participação de manufaturados também diminuiu, passando de 17% em 2011 para 8% em 2025, com o petróleo bruto respondendo por 29% das vendas ao bloco nesse período. Além disso, o Brasil apresentou déficit de US$ 39,3 bilhões na balança de manufaturados com a UE em 2025, o segundo maior entre seus parceiros comerciais, atrás apenas da China.
Apesar dos sinais de diversificação, com crescimento em produtos industriais, químicos, siderúrgicos e máquinas, ainda há desafios. Projeções indicam que o acordo poderá elevar as exportações brasileiras ao bloco em cerca de US$ 7 bilhões, um aumento de aproximadamente 14%, enquanto as importações vindas da UE podem crescer cerca de US$ 32 bilhões, ou 64%. A Comissão Europeia, por sua vez, estima um aumento de 39% nas exportações anuais para o Mercosul, o que corresponde a aproximadamente 49 bilhões de euros, reforçando a expectativa de maior venda de bens industriais por parte do bloco.
Esse cenário evidencia que, embora o acordo proporcione maior acesso ao mercado europeu, sem melhorias na competitividade e investimentos em produtividade, o aumento nas importações pode ampliar o déficit em manufaturados. A Carta IEDI destaca a necessidade de reformas na tributação e na redução do chamado Custo Brasil para que a indústria nacional possa aproveitar de fato as oportunidades abertas pelo tratado. Além disso, observa-se que apenas quatro dos dez principais produtos manufaturados vendidos ao bloco possuem alta intensidade tecnológica, como peças aeronáuticas e aviões.
Outro ponto de atenção é o aspecto jurídico, uma vez que o acordo está atualmente em fase provisória na União Europeia, enquanto o Tribunal de Justiça do bloco avalia sua legalidade, e a votação final no Parlamento Europeu ainda não ocorreu. Assim, o cenário ainda não está totalmente consolidado.
Para investidores, o foco deve estar na identificação de empresas com maior potencial de capturar valor, ou seja, aquelas que possuem produtos de maior valor agregado, marcas fortes, certificações e contratos de longo prazo. A exposição ao câmbio também é relevante, uma vez que o real mais forte pode diminuir a receita em reais de quem vende em moeda estrangeira, mesmo com a redução de tarifas. Uma estratégia diversificada, envolvendo setores de agronegócio, indústria exportadora e logística, é recomendada para uma análise de longo prazo, acompanhando os próximos balanços e dados mensais da balança comercial.
Em síntese, o acordo Mercosul-UE, nos primeiros meses, cumpriu a promessa de maior acesso ao mercado europeu, com redução de tarifas e aumento nas vendas. Contudo, a questão central permanece: o Brasil conseguirá avançar na cadeia de valor? A resposta depende de fatores internos, como competitividade, investimentos e decisões empresariais que se refletirão nos números futuros. O novo mercado oferece possibilidades, mas a escolha do que vender continuará sendo uma decisão estratégica do país.