A eleição de 25 de outubro determinará se o Brasil iniciará 2027 com uma forte aceleração na demanda por bens e serviços, impulsionada por um conjunto de medidas de estímulo econômico já anunciadas pelo governo federal. Entre 2026 e início de 2027, o governo disponibilizará uma quantidade significativa de recursos, estimada entre R$ 250 bilhões e R$ 354 bilhões, por meio de benefícios sociais, créditos e renúncias fiscais, de acordo com três levantamentos independentes. Grande parte dessas ações foi anunciada nas últimas semanas do período eleitoral, com efeitos que deverão se consolidar a partir de janeiro do próximo ano.
A análise aponta que, com a entrada em vigor dessas políticas, o Brasil começará 2027 sob um cenário de aumento de demanda, caracterizado por maior renda disponível, acesso facilitado ao crédito, perdão de dívidas e consumo antecipado. Embora essas medidas possam sustentar a atividade econômica no curto prazo, elas também representam um desafio para o mercado, que aguarda uma redução dos juros ao longo do próximo ano. O aumento simultâneo de estímulos fiscais e monetários, em uma economia com inflação acima da meta, tende a exercer pressão sobre os preços e restringir o espaço para o Banco Central reduzir a taxa básica de juros, a Selic.
Somente entre 17 de setembro e 13 de outubro, menos de um mês, foram anunciadas oito medidas com impacto fiscal direto, que se somam às ações já implementadas ao longo de 2026. Entre esses esforços, destaca-se o pacote do Microempreendedor Individual (MEI), que por si só representa um custo de R$ 16,7 bilhões aos cofres públicos, segundo dados do Poder360. Quando considerados todos os estímulos recentes, o impacto total previsto para 2027 chega a aproximadamente R$ 33 bilhões, antes de incluir benefícios como tarifa zero, incentivos ao MEI e programas de perdão de dívidas.
Embora o valor mais divulgado seja o gasto direto do Tesouro, o que realmente importa para a demanda é o volume de recursos que entram na economia, seja por meio de despesas públicas, isenções fiscais ou crédito. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), o montante total chega a R$ 298,4 bilhões, dos quais R$ 185,7 bilhões representam crédito disponibilizado às famílias e às pequenas empresas. Esses recursos, embora retornem ao Tesouro de forma gradual, estimulam o consumo imediato, pois consumidores e empresas realizam compras e investimentos, pagando parcelado.
O fator determinante para esse aumento de consumo é a propensão a gastar, que é elevada em programas como Bolsa Família, Pix ao MEI e perdão de dívidas, pois esses recursos chegam às mãos de indivíduos com alta propensão ao consumo. Assim, um real recebido por essas camadas tende a gerar mais atividade econômica do que um real de isenção fiscal destinada a quem prefere poupar.
A combinação de múltiplos estímulos simultâneos configura um verdadeiro choque de demanda para o início de 2027. Além disso, há um componente de oferta que agrava a situação: o Congresso promulgou uma emenda que elimina a escala 6×1 na jornada de trabalho, o que reduz as horas trabalhadas para o mesmo salário, elevando o custo do trabalho e limitando a capacidade de produção justamente quando a demanda está em ascensão.
Outro fator de risco é o calendário político e econômico: o subsídio ao diesel, que atualmente beneficia o setor de transporte, expira em 26 de outubro, logo após o segundo turno das eleições. A retirada do benefício pode elevar os custos de frete e pressionar os preços ao consumidor, enquanto sua manutenção custaria cerca de R$ 10 bilhões mensais aos cofres públicos.
O mercado financeiro já revisou suas projeções para o próximo ano, elevando a expectativa para a taxa Selic ao final de 2027 de 10,50% para 12,00%, além de aumentar a previsão de inflação de 3,80% para 4,30%. Para 2026, o IPCA projetado é de 5,22%, a quarta alta consecutiva e acima do teto da meta oficial, enquanto a taxa básica de juros está atualmente em 13,75%, o que representa um juro real superior a 8% ao ano.
O Banco Central, atento às tendências futuras, pode se ver diante de um cenário em que a aceleração da demanda, impulsionada por maior renda, crédito facilitado e custos de trabalho mais elevados, leve o Comitê de Política Monetária (Copom) a reduzir os juros de forma mais lenta ou menos intensa. Um estímulo fiscal robusto, portanto, pode obrigar a política monetária a manter os juros elevados por mais tempo, dificultando o controle da inflação.
O resultado potencial desse cenário é uma economia que, apesar de apresentar crescimento esperado de aproximadamente 1,4% em 2027, possa experimentar juros elevados e inflação persistente por mais tempo, comprometendo a recuperação econômica de longo prazo. Os setores mais expostos a esse choque de demanda incluem varejo, serviços, construção civil e automóveis, que devem se beneficiar de uma demanda aumentada no curto prazo, embora ativos sensíveis a juros possam sofrer com a manutenção de taxas elevadas.
Por fim, o próximo governo, independentemente de quem seja, herdará não apenas o estímulo já contratado, mas também a necessidade de administrar os efeitos dessa política expansionista. A economia de 2027 tende a começar com um ritmo mais forte do que o esperado, o que pode atrasar a redução dos juros e comprometer o equilíbrio macroeconômico. Para monitorar essa tendência, cinco sinais serão essenciais para confirmar se o choque de demanda se consolidará, tendo como consequência direta uma política monetária mais restritiva e juros mais elevados por mais tempo.