Dados do levantamento do MapBiomas revelam que, ao longo de 40 anos, o bioma do Cerrado sofreu uma redução de aproximadamente 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa situada a até 500 metros de rios e cursos d’água, o que representa cerca de 26,9% do total de perda no bioma nesse período. Essas informações fazem parte da Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil, que cobre o período de 1985 a 2025.
Segundo a análise divulgada nesta quinta-feira (8), em 2024, as áreas de pastagem e agricultura ocupavam conjuntamente 18,2% dessa faixa de vegetação, indicando uma significativa transformação na cobertura vegetal próxima às fontes de água. Em 2025, cerca de 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa permanecem a até 500 metros dos rios, o que equivale a 36,7% de toda a vegetação remanescente do Cerrado, destacando o impacto da expansão agrícola e pecuária sobre a integridade do bioma.
O estudo também aponta que o Cerrado é a origem de diversos rios que compõem as principais bacias hidrográficas do Brasil, como o Alto Tocantins e o Araguaia, que apresentaram as maiores perdas de vegetação nativa próximas aos cursos d’água. No Alto Tocantins, a área de vegetação a até 500 metros dos rios caiu de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares, enquanto no Araguaia a redução foi de 7,8 milhões para 5,1 milhões de hectares. A bacia do Médio São Francisco também apresentou declínio, passando de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares nessa faixa de proteção.
Somando as perdas nas bacias do Alto Tocantins e Araguaia, o total chega a cerca de 5,7 milhões de hectares, o que corresponde a aproximadamente 41% de toda a redução de vegetação nativa registrada em até 500 metros dos rios no Cerrado. O bioma, que é o segundo maior do Brasil com uma extensão de 200,4 milhões de hectares, sofreu uma perda líquida de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa ao longo do período, sendo a vegetação savânica a mais afetada, com uma redução de 34 milhões de hectares.
O avanço da agropecuária também é evidenciado pelo aumento expressivo na ocupação dessas áreas. Em 1985, a área destinada à atividade era de aproximadamente 46,7 milhões de hectares; em 2025, esse número subiu para 97,9 milhões de hectares, um crescimento de 110% em 41 anos. Essa expansão resultou na ocupação de quase metade do Cerrado, representando 48,9% do total do bioma. Quanto à agricultura, o uso de terras para esse fim atingiu 29,7 milhões de hectares em 2025, com o Cerrado concentrando quase metade da área de soja cultivada no Brasil no mesmo período, com 49,2%.
A região do Matopiba, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, destacou-se como principal área de expansão agrícola, sendo responsável por 66% da perda de vegetação nativa do Cerrado entre 2015 e 2025. Além disso, de acordo com os dados, apenas seis dos 13 estados que possuem áreas no bioma mantêm mais da metade de suas terras cobertas por vegetação nativa. A diminuição da cobertura vegetal também impactou a quantidade de municípios com predominância de vegetação nativa, que caiu de 624 para 225, totalizando atualmente 301 cidades sem esse predomínio.
O estado do Piauí apresenta a maior proporção de vegetação nativa no Cerrado, com 78,2%, enquanto São Paulo detém a menor, com 14,7%. As áreas de preservação, como terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, representam 7,5% do bioma, abrigando 13,9% da vegetação remanescente em 2025. Desde 1985, essas regiões sofreram uma perda de 500 mil hectares de vegetação. Por fim, a área urbanizada dentro do Cerrado atingiu um milhão de hectares, um aumento de 0,6 milhão em relação a 1985, com Brasília, no Distrito Federal, concentrando 6,8% desse crescimento.
A Coleção 11 do MapBiomas, que apresenta mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil, inclui o mapeamento de 33 classes de uso entre 1985 e 2025, com a incorporação de quatro novas categorias, contribuindo para uma análise detalhada do impacto humano sobre o bioma.