A campanha nacional Setembro Amarelo, dedicada à valorização da vida e à conscientização sobre questões relacionadas à saúde mental, reforça a necessidade de que empresas, especialmente as de menor porte, adotem uma abordagem estruturada e contínua para o bem-estar psicológico de seus colaboradores. Ao longo de todo o mês, diversos setores da sociedade promovem debates e ações voltadas ao tema, destacando a relevância de incorporar a saúde mental à cultura organizacional como um componente essencial do bem-estar geral.
No ambiente corporativo, a data serve para evidenciar a conexão entre saúde mental, desempenho, satisfação e cultura organizacional, com ênfase na importância de relações humanas e do acolhimento dos funcionários. Os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revelam uma preocupação crescente: o número de afastamentos por transtornos mentais, como ansiedade e depressão, atingiu recordes nos últimos anos, chegando a uma máxima histórica em 2025, com quase 550 mil licenças concedidas a trabalhadores brasileiros. Essa estatística evidencia o impacto real da saúde mental no mercado de trabalho e reforça a necessidade de ações preventivas.
A entrada em vigor da Norma Regulamentadora NR-1, que passou a incluir a saúde mental como parte integrante das políticas de bem-estar e saúde no ambiente de trabalho, também impulsiona as organizações a gerenciar melhor os riscos psicossociais. Apesar do avanço na visibilidade do tema, especialistas alertam que muitas pequenas empresas ainda enfrentam dificuldades para avançar na implementação de uma cultura de cuidado psicológico.
Segundo Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, que oferece programas de saúde mental para empresas, a principal barreira reside na falta de maturidade dessas organizações para lidar com o tema de forma estratégica e preventiva. Muitas PMEs concentram-se em ações básicas, como benefícios e estruturas de pagamento, agindo de maneira reativa apenas após crises ou afastamentos, ao invés de desenvolverem uma gestão proativa que integre a saúde mental às políticas de recursos humanos.
Ela destaca ainda que a ausência de dados concretos dificulta a tomada de decisão, pois muitas pequenas empresas operam com margens apertadas e enfrentam dificuldades para justificar investimentos na área. Sem informações precisas sobre custos relacionados a afastamentos, rotatividade e absenteísmo, torna-se complicado priorizar recursos e ações eficazes. Para Tatiana, a saúde mental deve ser vista como um ativo estratégico, que impacta diretamente a produtividade, os custos e a cultura organizacional.
O diagnóstico é apontado como o primeiro passo para organizações que nunca atuaram de forma estruturada na área. Conhecer os próprios números, como taxas de afastamento e rotatividade, permite às empresas entenderem os problemas atuais e planejarem intervenções específicas. A partir daí, é fundamental capacitar lideranças para que possam identificar riscos psicossociais e implementar ações preventivas, além de estabelecer responsáveis e prazos para monitoramento.
Outra recomendação importante é que as organizações invistam recursos na área, mesmo que por meio de ações de baixo custo, como treinamentos de liderança ou programas de assistência ao funcionário. Tatiana reforça que tratar a saúde mental como um investimento, e não como um gasto, é crucial para garantir o bem-estar dos colaboradores e a sustentabilidade do negócio.
Para consolidar uma cultura de atenção contínua à saúde mental, especialistas defendem que o tema deve deixar de ser tratado apenas em campanhas pontuais, como o Setembro Amarelo, e passar a fazer parte da gestão estratégica da empresa. Isso envolve compreender os custos reais de afastamentos e rotatividade, além de promover ações baseadas na escuta ativa dos funcionários e no acompanhamento de resultados.
Michel Cabral, CEO da startup Vixting, reforça que o mês de conscientização serve como ponto de partida para a implementação de ações que devem perdurar ao longo do ano. Segundo ele, o monitoramento constante e o uso de instrumentos adequados são essenciais para que o RH possa identificar padrões e atuar preventivamente, evitando que o esgotamento mental evolua para afastamentos mais graves.
Em síntese, a campanha Setembro Amarelo reforça a necessidade de que pequenas empresas adotem uma postura estratégica e estruturada na gestão da saúde mental, transformando essa preocupação em uma prática contínua de cuidado e prevenção, fundamental para o sucesso e a sustentabilidade do negócio.