O Banco Central do Brasil realizou seu quinto corte consecutivo na taxa básica de juros, a Selic, reduzindo-a em 0,25 ponto percentual na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada em 16 de maio, o que levou a taxa para 13,75% ao ano. Apesar dessa redução, o Brasil continua a deter a maior taxa de juros reais do mundo, ou seja, descontada a inflação do valor nominal, permanecendo em patamar de dois dígitos há mais de quatro anos. Essa trajetória indica que o processo de normalização dos juros deve ser mais lento do que o inicialmente previsto, conforme avalia André Cury, novo CEO do Citi no Brasil, em entrevista exclusiva ao CNN Money.
Segundo Cury, a expectativa de uma redução mais rápida da Selic no início do ano foi frustrada, uma vez que as taxas permaneceram mais elevadas do que o esperado. Ele destacou que, embora a tendência de queda continue, o cenário indica que a redução dos juros deve levar mais tempo, refletindo a persistente inflação elevada, que Cury considera o maior desafio atual não apenas do Brasil, mas do mundo. A deterioração das projeções de mercado também é notória: enquanto até janeiro a mediana das expectativas indicava uma Selic pouco acima de 12% ao final de 2023, as estimativas passaram a indicar a possibilidade de mais uma redução até o final de 2026, após revisões influenciadas pelos temores inflacionários relacionados ao impacto do conflito entre Estados Unidos, Irã e a crise energética global.
Apesar das dificuldades, Cury mantém uma visão otimista quanto ao futuro do mercado brasileiro. Ele afirmou que as empresas brasileiras estão se preparando para os cenários atuais, buscando oportunidades de longo prazo. Ressaltou a resiliência do empresariado local, que já enfrentou diversos desafios históricos, e destacou setores considerados estratégicos para o crescimento do país, como o agronegócio, a indústria digital — especialmente em áreas relacionadas à inteligência artificial —, mineração de minerais críticos e infraestrutura. Para ele, esses setores representam os pilares do futuro econômico do Brasil, e a atuação do Citi abrange toda a cadeia de negócios no país.
Por outro lado, o executivo reconhece que o cenário de juros altos ainda representa obstáculos, especialmente para o mercado de capitais. Os custos elevados de financiamento, decorrentes de prêmios maiores exigidos pelas empresas, tendem a postergar decisões de investimento, limitando o potencial de crescimento do mercado de ações e de ofertas públicas iniciais (IPOs). Ainda assim, Cury aponta oportunidades de curto a médio prazo, sobretudo em setores como infraestrutura, data centers e inteligência artificial, que apresentam forte demanda por capital e potencial de aceleração na atividade econômica.
Cury também destacou a importância do Brasil no cenário internacional, ressaltando que o país tem atraído o interesse de investidores estrangeiros. Segundo ele, o banco conecta negócios locais a investidores globais, com muitos deles vendo o Brasil como uma oportunidade de longo prazo devido ao potencial de recursos naturais, minerais críticos, energia e setor alimentar. Ele relatou que, recentemente, esteve na Semana do Clima e na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), onde ouviu comentários positivos sobre as perspectivas brasileiras. Além disso, revelou que recebe diariamente ligações de presidentes de outros países do Citi, interessados em oportunidades de negócios, fusões e aquisições, ou na instalação de novos escritórios no Brasil, reforçando a percepção de que o país mantém seu papel como um mercado de grande interesse internacional.